O cineasta francês
Jean Renoir (1894-1979) cravou seu nome na antologia da Sétima Arte,
principalmente, por duas produções de alto alcance social. Uma delas,
As regras do jogo (La Règle Du Jeu, 1939), trata
das relações de classe entre a aristocracia francesa e seus empregados.
A outra, A grande ilusão (La Grande Illusion, 1937),
enxerga a I Guerra Mundial como um cenário de diferenças tanto entre
nações quanto dentro de uma mesma pátria. Do primeiro, Robert
Altman colheu alguns elementos para criar Assassinato em Gosford Park
(Gosford Park, 2001). Na questão principal do filme de guerra, o
escritor John Katzenbach inspirou-se para compor o romance Harts War, de 1999.
Três anos
depois, conclui-se A guerra de Hart, filme baseado na obra de
Katzenbach, direção de Gregory Hoblit. Thomas Hart
(o promissor Colin Farrell, o Mercenário do novo filme do Demolidor),
um estudante de Direito, tenente dos Estados Unidos na II Guerra Mundial, cai
nas mãos dos inimigos nazistas. Num campo de concentração,
no meio de centenas de prisioneiros, Hart encontra dificuldades variadas. Por
um lado, a desconfiança e a inimizade do severo coronel William McNamara
(Bruce Willis). Por outro, as tensões existentes entre seus próprios
companheiros de bandeira. Os conflitos se agravam quando os alemães capturam
dois pilotos, ambos negros e as diferenças raciais exacerbam-se.
Embora da mesma pátria, alguns brancos não aceitam compartilhar
seu espaço com os negros.
Mentalidade
ariana
No calor das discussões,
morre um soldado. Acusado: Lincoln Scott (Terrence Dashon Howard),
um dos negros. Às pressas, para não ferir os direitos humanos,
os prisioneiros organizam um julgamento, com júri formado pela tropa
alemã. E Hart se incumbe da defesa de Scott. Fica claro, no entanto,
aos acusadores, às testemunhas e ao acuado, que o tribunal serve como
uma encenação. O filme não deixa brechas: a intenção
é mostrar que os norte-americanos podem ser tão racistas quanto
os seguidores da mentalidade ariana. Enquanto um dos generais da SS aprecia,
escondido, o Jazz negro dos Estados Unidos, o coronel McNamara claramente impede
Hart de interferir na decisão pré-estabelecida do julgamento.
"Se eu quisesse somente lutar contra os brancos, ficava em casa",
reclama Scott. "Esse julgamento merece mais seriedade, vocês não
estão no Alabama", avisa um nazista.
Se Renoir, um ex-combatente
que presenciou o terror do conflito da I Guerra, optou por exibir toda a crueza
das diferenças humanas, mas de maneira complexa e plural, A guerra
de Hart apóia-se em determinismos, reduz a história a discursos
extremamente humanistas e patrióticos. Funciona aliás, como um
típico "filme de tribunal", em que a Justiça
e as lições sempre prevalecem. Apesar de tudo isso, a comparação
não desmerece a produção. Renoir era um mestre. A obra
de Hoblit vale ser vista pela premissa interessante e pela abordagem de um tema
difícil e espinhoso.
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A guerra
de Hart
(Hart´s War - 2002)
Dir.: Gregory Hoblit.
Com: Colin Farrell, Bruce Willis, Marcel Iures, Terrence Dashon Howard,
Cole Hauser, Linus Roache.
Imagens
© 2002 - MGM
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