Confesso que me lembro muito pouco do A Morte Pede Carona,
clássico do suspense de 1986 no qual um viajante solitário aceita
dar uma carona a um estranho - que se revela um psicopata. Mas a cena dos dedos
decepados na batata frita, icônica da imprevisibilidade, da insegurança
e dos recursos do caronista assassino, não me abandona. Aliás,
essas três sensações são justamente o que retive
do filme - prova de que o diretor Robert Harmon fez um bom
trabalho há vinte anos.
Duvido um pouco que eu me lembre de alguma coisa da refilmagem homônima
de 2007, do estreante Dave Meyers, daqui a duas décadas.
O diretor não consegue reproduzir o clima do original, especialmente
porque é demasiado esteta. As tomadas cristalinas, ora saturadas, capturando
a amplitude do deserto do Novo México, apesar de belíssimas, afastam
da produção a constrastante sensação de claustrofobia
que me parece indispensável aqui. Faltam planos fechados, explorar melhor
o interior do carro, seu confinamento, a vulnerabilidade do casal. Aliás,
casal por que??? O filme original funciona melhor também porque tem apenas
um viajante - o que leva a sensação de solidão ao extremo.
E a estética segue prejudicando a produção também
na escalação de elenco. Os jovens viajantes, recém-saídos
da adolescência, são bonitos demais, especialmente a irreal Sophia
Bush (One tree hill), que passa o filme todo de microssaia, calcinha
de oncinha e botinhas. Atores-colírio em filmes de terror arruinam o
contraste - especialmente quando atuam limitadamente. Ao final do filme, a trama
exige de Bush uma técnica que ela simplesmente não domina. O resultado
é um tanto constrangedor - algo que tentam explicar com diálogo
(!) - e podem surrar, sangrar e sujar a atriz que ela simplesmente não
fica feia. Como mergulhar na história se a cada vez que ela surge há
esse surto de beleza?
Comparado aos dois, Sean Bean aparece melhor, no papel que
foi de Rutger Hauer. Mas o Boromir de O Senhor dos Anéis
não exala o perigo de seu antecessor. Hauer tinha na década de
1980 uma ameaçadora aura de insanidade calculada que poucos atores conseguiram
reproduzir desde então. Mas pelo menos a essência do personagem
continua intacta - a ausência de motivação para seus atos
segue intocada, algo louvável em tempos de fanatismo de roteiristas por
passado de personagem.
Mas no geral, dá até pra se divertir com o suspense. Há
boas perseguições (tão exageradas quanto o original), a
cena final do caminhão está lá (mostrando o que só
foi sugerido no filme de 86 - gosto dos dois) e a estética ao menos é
agradável: O diretor não sabe filmar suspense, mas pelo menos
sabe filmar.