O ano de 1989 foi
um divisor de águas para os filmes baseados em HQs, sub-gênero padecendo
do de descaso em Hollywood desde o fim dos anos 70, o último “boom”
de produções do gênero. Fora os esporádicos filmes
do Super-Homem e uma ou outra produção sem vergonha, os quadrinhos
passaram longe das telas. A retomada deve se a Batman - o filme.
Na verdade, esta
película só se tornou possível graças ao bom e velho
Cavaleiro das trevas de Frank Miller, publicado nos Estados
Unidos em 1985 e que resgatou o Morcegão do ostracismo, verdadeira ressaca
do seriado cômico dos anos 60. Até então quando se falava
em Batman, a primeira imagem que vinha à cabeça do público
era um bufão barrigudo e de músculos flácidos, acompanhado
por um moleque de meias-calça, que combatia vilões engraçados.
O fenômeno deflagrado por Miller não só resgatou a imagem
do Morcego como ajudou a levantar a moral dos quadrinhos como um todo. Várias
graphic novels depois, os executivos dos estúdios já estavam
de orelha em pé com os lucros em potencial de um longa-metragem sério
do nosso herói.
Dado o ponta-pé
inicial, a primeira polêmica em torno do filme foi a contratação
de um diretor praticamente desconhecido para o projeto. Tim Burton até
então só havia dirigido dois filmes cômicos: A grande
aventura de pee-wee e Os fantasmas se divertem. Os fãs tremeram.
Batman nas mãos de um diretor de coisas assim&qt& No entanto, quando o nome
do alucinado Jack Nicholson foi confirmado como o Coringa, os
ânimos voltaram a se elevar! A euforia tornou-se generalizada assim que
outros nomes de peso juntaram-se ao elenco. Para completar, os produtores prometeram
um roteiro com elementos da mini-série de Miller e da graphic novel
A piada mortal de Alan Moore. Tudo isto ainda viria embalado
por um orçamento milionário como os fãs de quadrinhos não
viam desde o primeiro Superman. O banho de água fria, no entanto,
veio com a escalação do protagonista: Michael Keaton.
Comediante de filmes
de segunda, Keaton, que havia trabalhado com Burton em Os fantasmas se divertem
era tampinha, calvo e não gozava da menor semelhança com o milionário
Bruce Wayne. Primeira opção do diretor, ele se tornou um
martírio para os fãs. Burton justificou-se que não queria
um Super-homem, mas um herói plausível, um homem comum, com o
qual o público pudesse se identificar.
As primeiras imagens
de Keaton posando de uniforme até que tranqüilizaram o público.
Afinal, era uma armadura, algo. em si. mais lógico até do que
um colante. E o filme seguiu em paz até sua estréia.
TINHA TUDO PARA
DAR CERTO
Sinistro, sombrio,
opressor mas... equivocado. É assim que pode se definir o filme. A atmosfera
era a certa. Os cenários deslumbrantes; a trilha sonora de Danny Elfman,
épica; o vilão excelente, mas o roteiro que é bom... necas!
A história demora para decolar e depois entra em queda-livre. Tim Burton
parece ter dirigido o filme algemado e com uma espingarda apontada para a cabeça.
Sua direção foi burocrática como uma modorrenta repartição
pública. Personagens entram e saem com a profundidade de um pires, transitando
por situações mal-resolvidas e cenas de ação nada
empolgantes. Resultado: um filme morno, muito longe do que estava sendo prometido.
PECADOS CAPITAIS
O filme comete
alguns pecados que limaram todo seu potencial:
- Michael Keaton:
Definitivamente, esse cara NÃO é o Batman. Mais parecido com
uma fuinha do que com um morcego, sua personagem é mal construída.
Em vez de um playboy, temos um milionário excêntrico e debilóide.
Menção especial para a cena em que ele revela sua identidade
secreta à fotógrafa Vicky Vale. Os dois mal se conheciam e dormiram
juntos uma única vez!
- A Armadura:
Era muito bonita quando Batman estava parado e bem longe, no meio das sombras.
De prática, porém, não tinha nada. Keaton parecia ter
vestido a roupa de seu irmão mais velho. A máscara dançava
folgada sobre seu rosto. O restante do traje era rígido como um Robocop,
e o herói não podia olhar para os lados. Um verdadeiro modelito-torcicolo,
natural como um bloco de cimento nas sofríveis cenas de ação.
- O elenco
de apoio:
Pat Hingle no papel de Comissário Gordon (ou gordo, por
motivos óbvios) está um desperdício. A fotógrafa
Vicky Vale (Kim Basinger, interpretando a si mesma) é
um bibelô descartável. Seu colega Alex Knox (Robert
Wuhl) é um mala-sem-alça. Harvey Dent (Billy Dee
Williams) está ali simplesmente por estar. O mesmo pode se dizer
do mafioso Grisson (Jack Palance) e a namorada do Coringa, Alicia
(a ex-Sra. Mick Jagger, Jerry Hall), que estão na história
só para encher lingüiça.
- O Coringa
matando os pais do Batman: Ora, seria melhor se tudo continuasse sendo
um acaso trágico. Essa palhaçada só serve para justificar
uma frase de efeito do protagonista: “Eu criei você, mas você
me criou primeiro”. Eeeeca! A cena do assassinato em si é
cafona. Uma pífia tentativa de reproduzir a maravilhosa seqüência
muda em Cavaleiros das trevas. Tudo em nome da simplificação
da trama e do clichê. Só faltava o Coringa dizer: “Eu
sou seu pai”!
- A morte
do Coringa: Idiota e ridícula! Não há pior clichê
do que vilão caindo para a morte no fim do filme! Sem falar que a cena
em si é tecnicamente deprimente. O Coringa que cai é uma animação
muito da sem-vergonha.
AS VIRTUDES
DO FILME:
- Abriu o filão
de adaptações milionárias baseadas em HQs, que começou
nos anos 90 e chega à maturidade nos dias de hoje.
- Possibilitou
a criação do novo desenho animado do morcego em 1992. Essa produção
revolucionou as animações americanas de aventura na TV, impondo
um novo padrão de qualidade e respeito com as personagens.
- Projetou as
carreiras de Tim Burton (que pôde realizar os excelentes Edward-Mãos
de Tesoura, Ed Wood e O Estranho mundo de Jack) e Danny Elfman,
um dos mais requisitados compositores de trilhas da atualidade. Detalhe: Elfman
é quem mais compõe para filmes de HQ.
- Jack Nicholson,
apesar de “gorducho” para o papel de Coringa, carrega o filme nas
costas.
- O mordomo Alfred
(Michael Cough) é correto desde o primeiro momento. Parece ser
a única personagem, além do Coringa, representada com adequação.
Ponto para o veterano Cough, que garantiu o emprego em todas as continuações,
a exemplo do inexpressivo Comissário vivido por Pat Hingle.
- Não
há o mala-sem-alça do Robin!
- O filme ganhou
o Oscar de melhor direção de arte, tendo sido indicado a vários
outras categorias técnicas.
QUEM RI POR
ÚLTIMO, RI MELHOR.
Com sua campanha
de marketing inigualável, o filme tornou-se uma febre mundial. Seu sucesso
instantâneo fez dele uma das maiores bilheterias de todos os tempos, até
então; para a alegria especial de Nicholson, que abriu mão de
seu cachê por uma porcentagem dos lucros. Na época, o doido de
plantão em Hollywood embolsou 65 milhões de verdinhas!!! Realmente,
o Coringa, roubou o filme!