Joel Coen sempre
dirige. Ethan Coen sempre produz. Os roteiros são escritos a quatro
mãos. Joel e Ethan são os famosos irmãos Coen, responsáveis
por filmes singulares como "Arizona Nunca Mais" ("Raising
Arizona", 1987), "Fargo" (1996) e "E Aí,
Meu Irmão, Cadê Você&qt&" ("O Brother, Where
Art Thou&qt&", 2000). Na carreira dos irmãos, uma peculiaridade atravessa
todos os filmes. Não importa o gênero, seja no humor negro de "Arizona",
no thriller cômico de "Fargo" ou nas citações
clássicas de "E Aí, Meu Irmão", a história
invariavelmente apresenta personagens excêntricos, situações
irreverentes, desenvolvimentos e desfechos absolutamente imprevisíveis.
Não seria
diferente em "O Homem Que Não Estava Lá"
("The Man Who Wasnt There", 2001), um dos melhores filmes
da dupla. Aqui, a atração fica por conta do gênero escolhido,
os filmes noir, aquele dos climas tensos, em preto-e-branco, das mulheres fatais,
dos senhores de smoking, dos fumantes inveterados, das mortes misteriosas e
das longas investigações. A escolha se encaixa plenamente ao estilo
dos brothers. Em um filme noir, nada é o que parece ser - exatamente
a especialidade de Joel e Ethan.
Mero
barbeiro
As divertidas anormalidades
ficam aparentes já num primeiro contato. Triunfante, Billy Bob Thornton
empresta suas feições sóbrias e sua voz rouca ao personagem
Ed Crane, um barbeiro. Casado com a infiel Doris (Frances McDormand,
esposa de Joel Coen) e empregado na barbearia do cunhado Frank (Michael
Badalucco), Crane faz de tudo para se manter uma incógnita - como
diz o título da película, a omissão em pessoa. "Não
sou sequer um barbeiro, eu só trabalho lá", repete Crane.
Tudo muda quando um empresário malandro, Creighton Tolliver (Jon
Polito), ocupa uma cadeira no salão. "Essa técnica
que estou criando, a lavagem a seco, vai revolucionar o mundo, garoto",
proclama Tolliver. "Só preciso que alguém me financie
com uma quantia de dez mil dólares", completa o empresário.
Crane se interessa.
Planeja enriquecer, se tornar mais do que um mero aparador de cabelos. Assim,
não pensa duas vezes antes de chantagear o amante da esposa, Big Dave
(James Gandolfini, da série "Família Soprano").
Consegue então a dinheirama. Crane se imagina o senhor da situação,
onisciente, poderoso, como um legítimo personagem do gênero. Mas
a sombra da noite e a névoa da madrugada reservam surpresas, e as consequências
da sua extorsão serão amplas e catastróficas.
Os irmãos
Coen conseguem uma proeza. Mantêm o mistério como pilar da história
- e a transformam na sátira mais deliciosa. Mas nem só em risos
se sustenta o filme. Fascina o tratamento reservado à fotografia em preto-e-branco.
Parecem existir milhares de tonalidades entre os dois opostos da cor. De maneira
coerente, "O Homem Que Não Estava Lá" concorre
ao Oscar 2002 de Melhor Fotografia. Mesmo assim, merecia mais. No Festival de
Cannes, em 2001, o filme foi indicado à Palma de Ouro, conquistada pelo
drama "O
Quarto do Filho" ("La Stanza del Figlio", de Nanni
Moretti, 2001). Na mesma premiação, Joel Coen dividiu o troféu
de Melhor Diretor com David Lynch e o seu "Mulholland Dr."
(2001). Na França, fez-se a maior justiça. No Oscar, porém,
os Coen são os homens que deveriam estar lá.