O
ESPERTO BOB
“Na natureza
nada se cria, tudo se transforma”.
Provavelmente foi
com essa máxima em mente que um certo jovem, conhecido como Bob Kane,
deve ter se sentado à prancheta para atender à encomenda de seu editor: uma
personagem capaz de rivalizar em apelo com o próprio Super-Homem, o fenômeno
absoluto de vendagem no saudoso ano de 1938.
Que tal um justiceiro
mascarado&qt&
Um cara que se
veste de preto para combater o crime, contando com a ajuda de seu fiel mordomo&qt&
Humm... Já haviam feito isso com o Zorro, anos antes....Mas dando uma
disfarçadinha, aqui ou ali, ninguém ia notar. Afinal, o Zorro era uma raposa.
E nosso herói precisaria de uma aparência mais imponente. E se ele voasse&qt& Como
naqueles esboços de asas mecânicas do Leonardo da Vinci... Ficaria legal, não
ficaria&qt& Um homem alado vestido de preto. Um homem... MORCEGO! Me engana que
eu gosto. Bob...
O PRECURSOR
Linda
a história do nascimento do Batman, não&qt&
Mas, depois de
assistir a um obscuro filme mudo chamado The Bat, a história do
Sr. Kane nos parece um tanto incompleta. Afinal, que raio de filme é esse&qt& Uma
série de crimes inexplicáveis está acontecendo na cidade. Um larápio ladrão
de jóias está deixando a polícia em polvorosa. Capaz de invadir os locais mais
bem guardados, ele tem o hábito de deixar cartõezinhos, no peculiar formato
de morcego na cena do crime. O educado malfeitor fazia questão de assinar seus
cartões com a mais que do apropriada alcunha de O Morcego. E
como era o dito&qt& Quem tinha o privilégio” de vislumbrá-lo deparava-se com um
sujeito vestido de preto (hum...), com máscara de morcego (huumm...) e orelhas
pontudas (huummm...), que viajava num planador em forma de você sabe o quê (ahh...),
possuía um cinto cheio de apetrechos (ah...) e ainda tinha o hábito de anunciar
sua presença com um sinal luminoso com forma de... nem preciso dizer, preciso&qt&
QUEM VEIO ANTES&qt&
O OVO OU O MORCEGO&qt&
Pois bem, a primeira
aventura do homem-morcego (não o nosso querido Batman) data de 1926,
ou seja, 13 anos antes do surgimento do dito. Já a história original
deste “ancestral” do vigilante de Gotham City, surgiu em 1908, num livro de
Mary Roberts Rinehart: The Circular Staircase. A trama já havia
sido adaptada ao cinema em 1915, sob o título The Bat, que, por sinal,
só se tornaria o protagonista em 1920, quando a obra sofreu nova adaptação,
desta vez para teatro, onde fora encenada 867 vezes. Todas elas sempre omitindo
o nome do protagonista, a fim de preservar o mistério e manter o interesse do
público em desvendar a identidade do pavoroso malfeitor.
Com
essa trajetória de sucesso, foi questão de tempo para que o Morcego ganhasse
nova versão nas telas. Neste filme, dirigido por Roland West (nada a
ver com Adam West, o gorducho morcegão da série dos anos 60), o único
fato a se lamentar é o que ele ficou estigmatizado devido às inegáveis “coincidências”
de conceito com a personagem criado posteriormente por Bob Kane. Muito além
disso, o filme possui seus méritos próprios. Sendo na verdade, um pequeno tesouro
do cinema mudo norte-americano. Sob clara influência dos filmes expressionistas
alemães, como o Gabinete
do Dr. Caligari, é na verdade um suspense de mistério e terror (claro)
muito interessante..
Não é possível
negar, entretanto, que, para o nosso repertório atual, muito das suas situações
são datadas e estereotipadas. Por exemplo: as personagens passam boa parte do
filme presas numa mansão “assombrada” pelo Morcego, que pode ou não, ser também
um de seus ocupantes.
Sem
falar nas interpretações excessivamente caricatas (a empregada da casa é um
desenho animado ambulante) e no ritmo lento da edição, típicos da época. Tais
elementos podem causar um certo estranhamento num espectador moderno. Nada porém
que desmereça a obra, pois a mesma possui uma bela e criativa fotografia, além
de conseguir ser envolvente. Embora não muito fácil de se encontrar, o filme
se encontra disponível em vídeo no Brasil.
MAS AFINAL,
QUEM SERÁ O MORCEGO&qt&
Bem, para conhecer
a identidade do meliante, só mesmo assistindo ao filme até o fim. Eu mesmo não
posso contar. Afinal, já no texto que abre o filme, os produtores inquirem o
espectador com o seguinte desafio:
“VOCÊ PODE
GUARDAR UM SEGREDO&qt& NÃO REVELE A IDENTIDADE DO MORCEGO. FUTURAMENTE, OUTRAS
PESSOAS FICARÃO COMPLETAMENTE ENTRETIDAS COM ESSE MISTÉRIO. DEIXE QUE ELAS DESCUBRAM
POR SI MESMAS.”
Leia
aqui a parte 2