Michael Bay no set de Transformers

Optimus: 10 mil partes móveis

Bumblebee: Baseado em Michael J. Fox

Robôs Kung Fu

Momento Michael Bay

Realismo nas manobras militares

Omelete entrevista Michael Bay, o diretor de Transformers

Um longo papo com o cineasta em Londres

20/07/2007Érico Borgo

A presença do cineasta Michael Bay - de filmes como A Ilha, Pearl Harbor e Bad Boys - na rodada de entrevistas de Transformers, seu novo filme, estava confirmada. Porém, assim que cheguei ao hotel londrino no qual o evento aconteceu, uma decepção: Bay, o entrevistado mais importante do dia, não compareceria.

Depois de conversar com produtores e elenco, já havia descido para almoçar quando o pessoal da Paramount entrou trôpego no modernoso restaurante avisando que Bay havia alterado seus planos e estava no local. Rapidamente, o almoço foi deixado para mais tarde e novamente me dirigi à sala de entrevistas. O diretor finalmente apareceu, com um jeitão bicheiro-chique (camisa aberta até o meio do peito, mullet) e acabou dando a mais longa entrevista da rodada. Confira como foi o ótimo papo!

Você parece cansado.

Michael Bay: Estou zonzo na verdade. Sério, estive na Coréia, Japão, Estados Unidos, Austrália... não sei nem que horas são.

Seu apreço pelo visual é bastante conhecido. Você às vezes tem primeiro as idéias visuais e depois tenta encaixá-las no roteiro?

Com certeza! Mas eu também escrevo bastante durante meus filmes. Eu escrevo todas as cenas de ação. Mas posso citar algumas seqüências que pensei primeiro no visual e depois busquei formas de colocá-las no texto: os japoneses esquentando os motores dos aviões em Pearl Harbor, o lançamento da nave em Armagedon, e neste os meteoros chegando à Terra. Mas isso só fica bom porque eu converso bastante com meus roteiristas, para encaixá-las direito.

E o que te atraiu em Transformers?

Quando eu recebi a ligação de Steven Spielberg me convidando para dirigir o filme, minha reação inicial foi recusar. Imediatamente imaginei o projeto como um filme bobo de bonequinhos. Mas ele me disse: "não temos idéia alguma de como será, a não ser que será um filme sobre um garoto comprando seu primeiro carro". E isso me fez pensar. O primeiro carro é algo muito importante para um jovem entrando na fase adulta, um momento sentimental. Mas bastou desligar para que eu novamente começasse a achar que seria uma bobagem. Mesmo assim, dei uma chance à idéia e fui até a Hasbro, no Japão, na "escola Transformers", como eles chamam o curso intensivo sobre a franquia. Chegando lá, não sei, alguma coisa naquela sala me fez refletir - e eu pensei "se eu conseguir fazer este filme bacana, real e incisivo, talvez eu tenha um projeto bom nas mãos afinal".

E acho que consegui. Semana passada tivemos uma exibição-teste no Arizona e uma mulher de 30 e poucos anos escreveu: "eu não queria ver esse filme, fui arrastada aqui, mas amei! O filme reinventou os super-heróis na telona. Estava cansada de capas e colantes".

Ok, você foi fisgado pela franquia no Japão. Qual foi sua maior motivação depois disso?

Fazer os robôs mais realistas possíveis. E acho que conseguimos algo memorável. Quando eu tinha 15 anos de idade eu trabalhei como estagiário na Lucasfilm, arquivando artes, essas coisas. E recebi uma carta de George Lucas logo depois de Pearl Harbor, dizendo: "você subiu o nível dos efeitos especiais". Eu mal pude acreditar. E acho que conseguimos de novo neste. Transformers não poderia ter sido feito há um ano atrás. Foi um trabalho complicadíssimo, especialmente por conta da iluminação. Pra mim, bons efeitos especiais são definidos pela iluminação. As pessoas nunca param pra reparar nisso, mas simplesmente sabem quando algo está errado e parece falso. Meu objetivo é sempre fazer a iluminação o mais realista possível..

Você coordenou uma equipe grande na Industrial Light and Magic então.

Umas 250 pessoas... e isso me lembrou uma história muito legal. Um desses artistas, da ILM, Keiji, é japonês. Fala inglês mal pra burro. Estávamos desenhando os robôs há meses - e ele quieto. Um dia, estávamos todos reunidos numa sala vendo os primeiros modelos 3D do rosto do Líder Optimus. Eu não estava gostando, estava achando estranho, meio gordo, mas estava pensando ainda, quando ouço uma voz exaltada ao fundo: "ISSO É UMA DESGRAÇA PARA O POVO JAPONÊS!" [Bay imita o artista falando]. Eu eu "wow, o que foi isso!?" O cara estava muito insatisfeito e estava só acumulando esse sentimento, até que explodiu. "EU QUERO FAZER O OPTIMUS!" Ahahahaha, demos o Optimus pra ele depois disso. E ele foi um gênio, especialmente nas transformações.

Você gerou brigas na ILM! Pelo visto houve uma grande concorrência por lá.

Me disseram que quando a ILM pegou o trabalho e começou a escolher equipe, Transformers foi o projeto mais desejado por lá. Tem muitos fãs da série na empresa, e isso ajudou demais, especialmente porque eles se entregaram com paixão àqueles modelos complicadíssimos, que são os mais elaborados já feitos. Só o Optimus tem 10 mil peças que se movem e se encaixam.

Esse processo de criação, pré-filmagens, parece divertido, mas também estressante.

É sim, eu fiquei cansado de ver robôs pela frente. Mas o que me manteve motivado foram as conversas com Spielberg. Ele se recusou terminantemente a ver o filme antes de ficar pronto, mas eu insisti tanto para que ele visse uma das cenas que ele acabou cedendo. "Só uma!" E eu mostrei pra ele a cena da casa dos Witwicky, com os robôs escondidos. E ele gargalhava, me dando tapas na perna: "eu nunca vi robôs agindo assim antes!" Isso me deixou muito confiante.

É verdade que você inspirou os robôs em atores?

Sim. Os maneirismos de Liam Neeson inspiraram Optimus, os de Michael J. Fox o Bumblebee e Hugo Weaving o Megatron - ele acabou dublando o personagem. Não tivemos a idéia de tentar colocar feições dos atores neles, mas em determinado momento, algum animador fez uma piada. Colocou a cara de Robert DeNiro num dos robôs e o fez atuar como ele. Ficou hilário!

As poucas críticas negativas do filme sempre mencionam o lado militarizado dele, com os EUA no Oriente Médio...

É um filme com uma premissa simples, sobre um garoto e seu carro, mas quis mirar mais alto com ele. E pensei, se eu fosse uma raça alienígena, a primeira coisa que eu faria seria ferrar com os militares. E aquela cena faz sentido, porque através de uma base militar remota - geralmente menos protegidas - você poderia ter acesso à rede do Pentágono.

E quanto envolvimento tiveram os militares?

Olha, eu liguei para representantes das Forças Armadas e, na verdade, não tive muito apoio na parte narrativa. Eles só me disseram que "se alienígenas hostis aparecerem, estaremos lá para enfrentá-los". Ahahahaha. Eles não estão nem aí para a política, nem um pouco preocupados se vou tirar sarro do presidente. Eles só querem que tudo que envolve suas ações seja tecnicamente perfeito e realista. Sabe aquela hora que os soldados chamam o ataque aéreo? É exatamente daquele jeito que acontece.

E o Setor 7, é de verdade também? Ahahaha

Isso ninguém sabe. Ahahahaha.

Você não quis mostrar o rosto do presidente por alguma razão?

Porque acho uma merda mostrar presidentes falsos. Aí achei que seria mais engraçado mostrar só as meias dele. Ahahaha.

Achei o filme muito parecido com alguns dos grandes filmes do produtor executivo, Steven Spielberg. Ação, humor... você sentiu influência dele?

Ele é um dos meus ídolos. Quando ele me convidou, me disse uma coisa, que eu não concordo, mas... "você tem o melhor olho em Hollywood, e eu roubo coisas dos seus filmes". E eu, claro, tive que revelar que também roubo coisas dos filmes dele. Foi muito diferente trabalhar com ele do que, por exemplo, Jerry Bruckheimer. Com Spielberg eu posso discutir visual, mas ele é mais difícil com dinheiro. Fizemos este filme com metade do orçamento dos outros filmes de verão deste ano. Homem-Aranha 3 custou 300 milhões, Piratas do Caribe, 350. Nós fizemos este com 145 milhões. Mas isso é porque Steven não exagera nos filmes dele. Se você parar pra pensar, Jurassic Park só teve 50 tomadas de efeitos especiais. Guerra dos Mundos, 150. Nós tivemos mais, 450, mas ainda assim não é tanto. Ele faz a gente pensar diferente, o que é um excelente exercício.

O problema é depois... quando ele finalmente viu o filme ficou falando "que pena, queria tanto ter visto essa cena", e eu "não tinhamos dinheiro pra ela, Steven". "Ah, mas nós teríamos dado mais dinheiro pra ela". Ahahahahahahahaha.

A computação gráfica e o processo todo é mais ou menos exigente do que o processo tradicional?

Muito mais. As pessoas pensam que damos 40 milhões para alguma empresa de efeitos e depois vamos pegar o filme pronto. Nada disso. É um trabalho diário. É como contratar um pintor e ir todos os dias ao estúdio dele coordenar as pinceladas. Eu prefiro trabalhar diretamente com cada artista da empresa, sentar ao lado dele no computador e trocar idéias diretamente. É mais produtivo.

Você fez filmes mais simples, como Bad Boys, e alguns blockbusters gigantescos. Depois que se começa a fazer essas grandes produções dá vontade de voltar aos menores?

Eu tenho muitos filmes pequenos que ainda quero fazer, filmes com personagens divertidos, diálogos espertos e bons atores. Mas eu também adoro essas produções grandiosas. É quase como se eu fizesse três filmes de uma vez. Eles levam muito, muito tempo, geram brigas com o estúdio...

Eu vi aquela montagem com 30 minutos do filme há alguns meses e notei que havia muito mais humor nela do que no filme acabado. Por que você cortou o humor? O filme é engraçado, mas havia mais.

Infelizmente, ele ficou longo demais. Tinha coisas engraçadíssimas nele, e eu odiei ter que cortá-las porque acho que o humor é ouro. Mas você tem razão, havia mais comédia, um excelente discurso de John Turturro... mas essas coisas todas vão para o DVD. Não deu para usá-las porque as pessoas reclamariam muito da duração. E a comédia é sempre a primeira coisa a cair, porque não é essencial para a história.

Os fãs foram impiedosos no começo. Foi difícil pra você?

Chorei muito. Ahahahahaha. O que há de se fazer? Eles não faziam a menor idéia do que eu tinha em mente para o filme e espero que agora, depois que virem o filme, vão ficar tão empolgados com ele quanto eu. Mas na época, eu aceitei as ameaças de morte como um homem! "Foda-se Michael Bay", "Michael Bay vai arruinar minha infância", "Morte a Michael Bay"... sabe? Ahahahaha. Mas quer saber? Eu ouvi algumas das idéias que pipocaram online. Ouvi o que os fãs tinham a dizer. Mas coloquei chamas na pintura do Líder Optimus mesmo assim. E dane-se quem não gostou. Hahahaha. Mas eles estavam certíssimo em relação a Peter Cullen [dublador do personagem].

A Internet pode ser uma boa ferramente para os cineastas então?

Não sei... a Internet é um lugar perigoso. Alguém pode te fazer uma pergunta, tirar a frase de contexto e atribuir aquele pedaço a você na Internet. É perigoso. Aí jornalistas lêem esses caras e acham que é verdade... e a coisa acaba num grande veículo.

Outra coisa me me chamou a atenção foi como você, mesmo num filme grandioso como esse, consegue encontrar tempo para improvisar com seus atores.

Eu adoro fazer isso! Nas cenas complicadas não dá muito pra fazer, mas nas cenas de humor, onde há apenas atuação, há espaço. Aquela cena da conversa sobre masturbação, por exemplo. Inicialmente, a mãe batia na porta fechada e falava para o pai: "talvez ele esteja se m-a-s-t..." e eu pensei, "quer saber? isso é idiota". Aí chamei eles e pedi pra se soltarem. E deu no que deu. Ficou ótimo.

Acho que uma das coisas mais polêmicas em relação aos fãs foi que vocês deram rostos aos robôs.

Olha, sem aquelas partes móveis formando um rosto, simplesmente não haveria emoção. Não há como criar empatia pelos robôs. Precisávamos de sobrancelhas, por exemplo. Se bem que quando o som entrou, essa necessidade foi até minimizada. O som é fundamental para o filme.

Vocês usaram captura de movimentos para os robôs?

Nenhuma. É tudo animação. O que fizemos mais parecido com captura de movimento foi colocar uns lutadores pra brigar, filmar eles e mostrar aos animadores, para que eles usassem como base. Porque eles tentaram fazer sozinhos e ficou muito ruim. Mas isso porque esse não é o trabalho dos caras. É para isso que existem coreógrafos de luta, caras que estão há 20 anos fazendo isso. Então fizemos dessa maneira.

Os produtores disseram que você não gosta de chroma key.

Nem um pouco. Isso é quase animação, quase deixa de ser filme. Eu gosto do trabalho clássico, de criar meus sets, dar realismo a eles...

Você tem planos para outras mídias?

Sim, vou tentar agora fazer uns videogames. Sabe, outro dia me mostraram um jogo que tinha cenas inteiras copiadas de Pearl Harbor. E eu fiquei puto. Esses caras estão roubando meu trabalho! Sabe, cineastas usam idéias uns dos outros, colaboram, mas esses sujeitos copiaram tudo, sabe? Então vou tentar entrar no mercado, ver como é, com a Digital Domain [Bay é presidente da empresa de efeitos especiais]. Acho que os videogames, de uma certa forma, são os filmes interativos dos quais tanto se falou um tempo atrás. Vamos fazer umas animações também. Mas no momento estamos desenvolvendo o programa que fará os efeitos de The Curious Case of Benjamim Button, de David Fincher, um humano completamente digital. E estamos começando um projeto que será inovador, o primeiro longa-metragem animado gerado a partir de um engine de videogame, o que deve acelerar demais o processo.

Shia LaBeouf disse que você não é o tipo de diretor que gosta de abraçar atores de manhã. Você sabe dessa reputação?

Ehehehehe, olha, na minha vida pessoal sou muito amável, mas na profissional sou bastante duro. Filmo muito rápido. Trabalho com a minha equipe há 16 anos, eles me conhecem bem, conhecem meu estilo. É por causa disso que consigo fazer por 145 milhões um filme que todo mundo faria por 300. Trabalhamos 12 horas por dia, duro e rápido. Não estendemos o dia além disso, como alguns fazem, por 15, 16 horas, pois o rendimento cai demais. Mas tiramos o máximo dessas 12. No meu set eu sou praticamente o diretor-assistente. O trabalho do diretor-assistente é empurrar a equipe, coordenar tudo, e eu estou o tempo todo no set, o tempo todo empurrando. Quando começo um filme entro num estado mental de muito foco e isso pode gerar a reputação. Mas, sabe, atores voltam para trabalhar comigo, então...

Ouvi dizer que você iria ao Brasil para divulgar o filme.

Acho que estava nos planos, mas estou tão cansado que não vai dar. Rodei o mundo e o final da produção foi tão estressante que estou uma lástima. Não tenho um dia livre sequer há meses. Infelizmente, não será desta vez.

 
 


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