Responda rápido:
quantas vezes você já ouviu (ou disse) a frase odeio
filmes franceses&qt&
A não ser
que você seja um assíduo freqüentador de mostras de cinema,
aposto que a opinião geral do seu círculo de amizades seja a de
que o cinema do velho continente é chato, cansativo e cabeça
demais. Claro que descarte aí as produções internacionais,
do tipo O quinto elemento, O profissional
ou Despedida em Las Vegas, todas co-produções
França/Estados Unidos.
Se esse for o seu
caso e a simples idéia de assistir a um filme francês lhe causa
ojeriza, talvez seja a hora de tomar uma vacina, preparada, é claro,
como todas as imunizações: com uma dose do próprio problema.
Agora, se você reconhece a vida cinematográfica fora de Hollywood,
prepare-se para saborear um lado dela que há muito não provava.
O fabuloso
destino de Amélie Poulain (Le fabuleux destin dAmélíe
Poulain, 2001) é uma improvável produção de
Jean-Pierre Jeunet. Digo isso porque o cineasta é mais conhecido
por sombrios filmes de ficção, tais como Delicatessen (idem,
1991), Ladrões de sonhos (La cité des enfants perdus,
1995) e Alien: A Ressurreição (Alien: Resurrection,
1997) - e de sombrio, Amélie não tem nada.
Amélie
Poulain (Audrey Tatou), é uma jovem que passou toda a sua
vida em um completo estado de voyeurismo, observando e acatando as ordens de
seus neuróticos pais. Claro que, na vida adulta, carrega toda essa carga
anos a fio, simplesmente atravessando sua existência sem maiores dramas
– ou amores.
É nessa
hora que, numa espécie de experimentação da Teoria do Caos,
Jeunet introduz na vida de Amélie o evento da morte de Lady Di.
Não que a garota fosse uma das devotas da princesa plebéia,
mas a simples notícia pela TV faz com que ela se distraia e derrube uma
tampa que segurava. O objeto bate na parede e solta um dos azulejos, revelando
um compartimento secreto. O tesouro que estava ali será o
responsável pela mudança da vida de Amélie, transformando-a
numa espécie de super-heroína, cujo único poder
é o de engatilhar eventos na vida de todos que a cercam. Não é
a toa que Amélie veste-se de Zorro em determinado momento do filme.
Apesar da mudança
de gênero para Jeunet, seu estilo recheado de ângulos de câmera
inusitados, edição rápida e efeitos para manter o dinamismo
do filme, continua presente em cada cena. O diretor chega até a repetir
a fórmula de uma das melhores passagens de Delicatessen, na qual
o som e as vibrações cadenciadas de um casal tendo relações
sexuais afetam o ambiente e as pessoas à sua volta.
Enfim, com tanta
celebração dos pequenos eventos da vida, O fabuloso destino
de Amélie Poulain é um daqueles filmes que você deve
recomendar à sua mãe, sua tia, seus amigos... Ah, se for levar
a cara-metade ou tiver alguém em vista, uma ótima dica: Nenhum
casal saiu do cinema sem estar abraçado! Isso eu garanto! ;-)