Mundo
Cão (Ghost World) e Do Inferno (From
Hell), foram duas boas surpresas de 2001. Adaptadas dos quadrinhos para
as telas, as duas produções mostraram aos cinéfilos que
nem só de capas e superpoderes vivem as HQs. Entretanto, enquanto Mundo
Cão teve a participação maciça de seu criador,
Dan Clowes, Do Inferno não teve a mesma sorte. Alan
Moore e Eddie Campbell só assistiram ao filme quando ele estava
pronto. Apesar das discrepâncias gritantes entre a obra impressa e a filmada,
a produção tem seus méritos.
Enquanto a graphic
novel de Moore e Campbell (leia resenha aqui)
é grandiosa e absolutamente profunda e meticulosa, a adaptação
escrita por Terry Hayes e Rafael Yglesias obviamente tem ambições
muito menores. Nos quadrinhos, Jack, o Estripador é "dissecado"
pelos criadores. Sua identidade é revelada logo no início da história,
tornando-a não uma "caça às bruxas", e sim, um
exercício de interpretação histórica sobre o final
do século XIX. No filme, o foco é distorcido, tornando o personagem
principal o Inspetor Fred Abberline (Johnny Depp). Desta forma,
não se conhece a identidade do estripador e o filme torna-se um thriller
de suspense. "Foi-se a sutileza", comentou Jotapê
Martins, cozinheiro do Omelete e editor da versão nacional da HQ.
Os Irmãos
Hughes, diretores, com
Johnny Depp e Heather Graham
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Entretanto, a adulteração
da obra não incomoda nem um pouco o escritor Alan Moore, cuja participação
no filme se resumiu a uma breve conversa com os diretores. A essência desse
bate-papo pode ser definida na seguinte frase do criador de Watchmen: Eu
fiz a minha parte. Agora, vocês vão lá e façam o filme que vocês quiserem.
Moore não acredita em adaptações literais de uma mídia
para outra. Com os quadrinhos, você pode passar todo o tempo que quiser
absorvendo os detalhes, notando coisinhas que nós plantamos ali. Você também
pode voltar as páginas para estabelecer uma relação entre uma imagem e uma linha
de diálogo de algumas páginas atrás. Mas em um filme, pela natureza da mídia,
você é arrastado através dele à 24 quadros por segundo, afirma o criador
de Do Inferno.
Mudanças
à parte, os Irmãos Hughes fizeram um ótimo trabalho
na direção. A fotografia, dirigida por Peter Deming (Estrada
Perdida), é excepcional e utiliza atordoantes efeitos para mostrar
a passagem do tempo e flashbacks. Outro ponto positivo é o perfeito
trabalho de reconstituição de época. O ilustrador Eddie
Campbell ficou impressionado com a forma que o desenhista de produção
Martin Childs (vencedor do Oscar por Shakespeare Apaixonado), conseguiu
recriar o bairro de Whitechapel (cenário dos crimes do Estripador).
A
história
From Hell
(título original) é um filme sobre pessoas que levam uma vida
dura, vivem no inferno, e tentam sobreviver às mais duras
circunstâncias.
Mary
Kelly (Heather Graham), Kate Eddowes (Lesley Sharp),
Liz Stride (Susan Lynch), Dark Annie Chapman (Katrin
Cartlidge) e Polly (Annabelle Apsion) são algumas dessas
pessoas. Prostitutas, vivem numa sociedade que as trata com desprezo. A única
pessoa que lhes dá uma certa proteção e atenção
é o Inspetor Abberline que é, também, uma pessoa amargurada.
Atormentado por
lembranças insuportáveis, Abberline, que perdeu mulher e filho,
sempre busca refúgio no ópio. Depois de cinco anos de trabalho
em Whitechapel, ele é designado a liderar as investigações
sobre o criminoso conhecido como O Estripador, sempre ao lado do Sargento
Godley (Robbie Coltrane) que, apesar de ficar intrigado pelos métodos
não ortodoxos e clarividentes de Abberline, o ajuda sem questionamentos.
Mas, embora as buscas sejam incessantes, o misterioso serial killer continua
a cometer seus crimes bizarros, obedecendo quase a um ritual.
Jack,
O Estripador nunca foi descoberto. O mistério de sua identidade, seus
crimes hediondos cometidos em lugares públicos e sua habilidade em esconder-se
pela noite continuam intrigando o mundo, mesmo mais de um século depois.
Do Inferno não é o primeiro e não será o último
filme a transportar sua história para as telonas, mas certamente, está
entre os melhores do gênero.
Imagens
© 20th Century Fox