A
primeira coisa que me perguntaram quando falei que tinha ido ver A Espinha
do diabo era se o "coisa-ruim" estava com problemas de acne.
Felizmente, o filme está longe disso. Trata-se de um drama com pitadas
de paranormalidade. Mas não confunda esta produção de língua
espanhola com as novelas mexicanas que vemos na TV. O diretor mexicano Guillermo
Del Toro, que está dirigindo Blade 2 (com Wesley Snipes),
está cotado para dirigir um possível filme do Hellboy e não
é parente de Benício Del Toro, fez um trabalho muito bom.
Nos anos 30 do
século passado, a Espanha está passando por sua guerra civil.
No meio do nada, há um orfanato onde filhos dos combatentes são
criados até que a guerra termine. É o caso de Carlos (Fernando
Tielve), um garoto de 12 anos que é deixado pelo seu tutor para ser
criado por Carmem (Marisa Paredes), a diretora, e Casares
(Federico Luppi), um professor de ciências e médico nas
horas vagas. Logo que chega, o menino é recebido pelos outros órfãos
e fica amigo de alguns por trazer na mala uns gibis. Isso causa ciúmes
e birra em Jaime (Iñigo Garcés), o chefão
do pedaço.
Entre os adultos
que comandam a instituição há um quadrilátero amoroso
- hora platônico, hora carnal - envolvendo Carmem, Casares e os jovens
Jacinto (Eduardo Noriega) e Conchita (Irene Viseto).
E esta trama paralela é que vai decidir o rumo das crianças no
fim da história.
I
see dead people
Apesar
de ser testado o tempo todo, Carlos se mostra durão e não cede
aos temores de estar num lugar desconhecido e assombrado por um fantasma. Assim
como acontece com o Haley Joel Osment em O Sexto Sentido, Carlos
também vê pessoas mortas. Na verdade, criança morta. Trata-se
de um dos ex-internos, Santi (Junio Valverde). A computação
gráfica usada nas aparições de "O que susurra"
está ideal e dá ao personagem todo o clima amedrontador que necessita.
Pode-se
dizer sem pestanejar que a produção em nada deve aos filmes de
médio orçamento feitos em Hollywood. Desde o cenário, imaginado
a partir da idéia que o diretor tinha da Espanha, até a escolha
do elenco tudo se encaixa. A qualidade técnica da fotografia e a trilha
sonora instigante são outros "detalhes" que não podem
passar desapercebidos, pois fazem toda a diferença.
Não se assuste
com o título do filme (lá pela metade da história, você
vai entender o que é a tal espinha do diabo). Vá com fé
e deixe pra ficar com medo a partir do momento que as luzes se apagarem.