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Mais
estranho que a ficção
Stranger Than Fiction
EUA, 2006
Comédia - 113 min |
Direção:
Marc Forster
Roteiro: Zach Helm
Elenco: Will Ferrell, Denise Hughes, Tony Hale, Maggie
Gyllenhaal, Emma Thompson, Queen Latifah, Tom Hulce, Linda Hunt, Dustin
Hoffman, Thomas R. Trojanowski, Kristin Chenoweth, Christian Solte |
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Mais Estranho que a Ficção (Stranger
Than Fiction, 2006) é o novo Feitiço do Tempo (Groundhog Day,
1993). Ambos recorrem a estruturas de comédia romântica e realismo fantástico
para falar sobre a arte de contar histórias.
Nos dois filmes, os personagens principais ficam
sem ação diante de um fenômeno: há alguma força maior controlando as suas vidas
(e não é o destino). No filme que Harold Ramis dirigiu em 1993, Bill
Murray reprisava o papel de homem pasmado que sempre o marcou. Em Mais
Estranho que a Ficção, ao contrário, o comediante Will Ferrell experimenta
o seu primeiro personagem apalermado, acrescentado a uma rica galeria de tipos
histéricos e cartunescos.
É também a primeira comédia dita inteligente
da carreira de Ferrell. Na trama metalingüística ele vive Harold Crick, cobrador
de impostos da Receita Federal que surta quando a sua vida começa a ser contada
por uma voz que só ele consegue ouvir. A narradora, Kay Eiffel (Emma Thompson),
luta para completar o que pode ser seu melhor livro, ápice de uma carreira de
romances trágicos. Kay só não percebe que o seu protagonista está vivo e incontrolavelmente
guiado por suas palavras.
Escrito pelo bom estreante Zach Helm,
o roteiro ganha ares de contagem regressiva quando Harold descobre que Kay planeja
matá-lo no final do livro. Há no caminho uma paixão, aparentemente incompatível
(não há melhor paixão nas comédias românticas do que a incompatível). Bill Murray
precisou viver o mesmo dia indefinidamente para ver que amava Andie McDowell.
E o Harold Crick de Ferrell precisou ter uma vez dentro de sua cabeça, narrando
seus atos e antecipando a sua morte, para perceber que estava jogando a vida
fora.
Apoiado nos excelentes diálogos de Helm e na estrutura
narrativa familiar ao espectador, o diretor Marc Forster (A última ceia, Em busca da Terra do Nunca) vira do avesso o
batido mote do loser-que-desabrocha. O cinema indie de Hollywood
tem forte tendência à fracassomania - quanto mais desgraçado o personagem principal
mais bonita será a sua volta por cima. Forster subverte a situação com ironia:
até o próprio Crick sabe que é um perdedor, porque há uma voz, contando sua
história, que não pára de repetir isso.
A autoconsciência é a grande chave do filme.
Somente ao entender a sua própria situação Crick tem a chance de domá-la. Nesse
ponto, não há metalinguagem maior: onisciente, o personagem deixa de ser marionete
do contador de história. Isto é, destronar o narrador da confortável posição
de tirano - todo narrador é tirano, inclusive Kay Eiffel, e alguns, como os
Paul Haggis e os Alejandro Iñárritu da vida, são mais que os demais
- é o jeito de Harold Crick tomar para si os rumos de sua jornada.