Quando assumiu a direção de Jesus - A História
do Nascimento (The Nativity Story, 2006), Catherine Hardwicke
tinha no currículo apenas dois longas, os dramas adolescentes Aos treze e Os reis de Dogtown. Coisa boa poderia vir daí,
portanto.
Depois, quando ela escalou para o papel de Maria
uma menina de 16 anos, a talentosa Keisha Castle-Hughes (Encantadora de baleias), legitimamente pensamos
que poderia surgir uma releitura da história da Natividade. Algo menos cerimonioso,
talvez a passagem bíblica contada do ponto de vista da mãe de Cristo, tradição
incomum para quem não idolatra a Virgem como os brasileiros.
Nem releitura, nem novo ponto de vista. Keisha,
Catherine e o filme em si deixam-se levar pelo espírito da ocasião. Jesus
- A História do Nascimento é o típico e protocolar produto de Natal.
O roteiro de Mike Rich (roteirista de
Encontrando Forrester e Meu nome é Radio) cobre o período de dois
anos em que Maria e José deixam Nazaré e rumam 160 quilômetros até Belém
para o nascimento de Jesus. Personagens como o Rei Herodes, João Batista,
Zacarias, Elizabeth e os Reis Magos cruzam o caminho predestinado
do filho de Deus. Mas isso você já sabe - é a trama mais repetida dos últimos
2.000 anos. O filme não tomaria licenças com a Bíblia, e nem seria o caso.
A diretora esboça uma autoralidade no começo,
na apresentação de Maria. Junto com as amigas, ela brinca diante dos meninos.
Num primeiro momento, quando José a pede em casamento, a personagem reage com
a cabeça, digamos, de uma jovem do século 20 - não quer se casar com uma pessoa
que não ama, reclama. Quando o Espírito Santo lhe anuncia a santa concepção,
a menina questiona. Percebe-se o conflito interior.
A Maria de Keisha Castle-Hughes tem os olhos
brilhantes de uma inconformada - ou pelo menos é assim até que lhe desce a palavra
divina. No auge da dúvida, um anjo a esclarece. Era tudo apenas uma questão
de fé, e àqueles que acreditam não há hesitação. Com o perdão divino do trocadilho,
a partir daí Hardwicke entrega pra Deus.
Entra-se, então, numa das grandes questões do
Cristianismo, a idéia de que a crença é maior do que o livre-arbítrio. No filme,
quando Maria tem a chance de escolher o caminho de Belém ao lado de José, não
o faz por reflexão, mas por um automatismo de devoção. Pode ser duro dizer isso,
mas, medindo a maneira como Maria nos é apresentada no filme, humana, orgânica,
e a maneira como ela caminha em direção à Natividade, é como se a intervenção
divina fosse uma despersonalização.
A favor da produção, diga-se que a mensagem de
solidariedade é bastante reforçada. Até Belém, Maria e José encaram pobreza
e injustiça - Jesus vem como uma crença, sim, mas como uma crença no conserto
do mundo. Precisamos mesmo todos de um salvador, é o subtexto que lateja durante
todo o filme. Nesse ponto, felizmente, estamos longe de ver um Mel Gibson
em Catherine Hardwicke. Ela veste a camisa natalina não em prol de um fundamentalismo
sádico como o de A Paixão de Cristo, mas em nome do que há de mais generoso
no Catolicismo: a reciprocidade. Já é alguma coisa.