O labirinto do fauno
O labirinto do fauno
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Labirinto do Fauno
El Laberinto del Fauno
México/Espanha/EUA
2006, 112 min
Drama/Fantasia |
Direção
e roteiro: Guillermo
del Toro
Elenco: Ivana Baquero, Doug Jones, Sergi López,
Ariadna Gil, Maribel Verdú, Álex Angulo, Roger
Casamajor, César Vea, Federico Luppi, Manolo Solo
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O labirinto do fauno
(2006) é com certeza um dos melhores filmes do ano. O cineasta Guillermo
Del Toro apresenta uma fábula sombria recheada de metáforas e alegorias.
Além de ser puro entretenimento, o longa também é uma ótima refeição mental
para os cinéfilos e amantes da literatura fantástica. É fácil encontrar referências
a filmes como O Iluminado, A Lenda do cavaleiro sem cabeça, O
mágico de Oz, Hellboy (do próprio Del Toro) e livros como Alice
no país das maravilhas e as fábulas de Hans Christian Andersen e dos Irmãos
Grimm.
O filme abre com uma pequena narração sobre uma princesa que abandonou seu
reino subterrâneo para conhecer a realidade humana e as conseqüências de seu
ato. Depois disso conhecemos Ofelia (Ivana Baquero), uma menina de
10 anos fascinada por livros de contos e fábulas com fadas. Ela está viajando
junto com a sua mãe Carmen (Ariadne Gil) para o campo, onde vai encontrar
seu padrasto, Vidal (Sergi Lopez). Ele é o capitão das forças fascistas
do general Franco, que governa a Espanha em favor dos ricos e poderosos com
a aprovação da Igreja Católica. Logo de cara percebemos que Vidal é um homem
extremamente sádico e que maltrata Ofelia.
Aos redor de sua nova casa, a menina encontra um labirinto que leva a uma
trilha subterrânea. Lá ela conhece o Fauno (o mímico Doug
Jones), uma criatura metade humana, metade bode, que a convence de
que ela é a princesa perdida do reino subterrâneo e que precisa realizar três
tarefas para retornar para seu reino. Ao mesmo tempo em que Ofelia embarca
nessa viagem repleta de fantasia, Vidal não poupa esforços e sadismo para
exterminar os rebeldes que ameaçam o governo.
O mundo fantástico
Realidade e fantasia se completam em um verdadeiro banquete de cenas e personagens
inesquecíveis. Visualmente, o filme é soberbo. A cor é extremamente carregada
de um sombreado que transforma a narrativa em um livro antigo de fábulas.
Inteligentemente, Del Toro transporta seu argumento para o campo. Cercado
de florestas, o público se sente confortável em aceitar que possa existir
por ali um universo mítico. Envolvendo este universo estão as duras cercas
do mundo real, característica que também marca o trabalho de outros diretores
fantásticos, como Tim Burton e Terry Gilliam. O único ingrediente diferente
no filme de Del Toro são os toques surrealistas herdados do cineasta espanhol
Luis Buñuel, outro que utilizou sua obra para criticar os fascistas.
Esse universo onírico e gótico é a espinha dorsal do filme. Del Toro não
delimita o que é fantasia ou realidade. Ele aponta caminhos e deixa que o
público embarque na viagem de sua preferência. Mesmo na conclusão, Del Toro
contrasta os dois mundos. O espectador tem a possibilidade de escolher baseado
em suas crenças pessoais. Quem não acredita em fadas, lendas e mitologia não
se sentirá enganado. Otimistas que ainda vêem esperança no mundo caótico em
que vivemos ficarão satisfeitos. E essa dualidade fica evidente na personalidade
de Ofelia. Ela mostra que talvez a melhor maneira de escapar da realidade
seja criando um mundo de fantasia.
Del Toro correlaciona seus personagens fabulescos com os de carne e osso.
Nas tarefas, Ofelia é obrigada a enfrentar criaturas horripilantes. Impossível
não associá-las à brutalidade de Vidal. Por mais aterrorizantes que sejam
as aparências dos seres, fica a impressão de que os humanos são os verdadeiros
vilões.
Mundos contrastantes
Fica evidente a diferença entre o mundo de Ofelia e o de Vidal. Ela acredita
em sonhos e fantasia, sentimentos e características vitais para o desenvolvimento
do ser humano. Vidal é um produto de mundo rígido e fascista. Sua ideologia
é baseada na violência. Del Toro aproveita para analisar psicologicamente
como homens dessa natureza são resultado de uma relação agressiva e abusiva
dos seus pais.
Mas o debate não é só social, mas também político. Vidal não consegue ver
nos rebeldes uma ameaça. Para ele, é uma questão de tempo para que todos sejam
eliminados. Em A
espinha do diabo (2001), Del Toro já tinha utilizado crianças para
apresentar temas políticos como pano de fundo - a mesma guerra civil espanhola.
Os dois filmes se completam em significado. E a mensagem de Del Toro não é
sobre a perda da inocência, mas sim de como temos que nos abarcar a ela para
conseguirmos sobreviver emocionalmente.
O elemento humano por trás dos comentários e mensagens de Del Toro reforçam
ainda mais suas idéias. Todo o elenco está excelente. Mas quem chama a atenção
é Sergi Lopez. Impossível desviar o olhar da tela quando
ele aparece. Ele cria um vilão completamente odiável e se torna o ser mais
asqueroso e repugnante, mesmo rodeado pelas criaturas mais estranhas possível.
Del Toro realizou todo seu filme com uma equipe basicamente mexicana, mas
sem dispensar a máquina hollywoodiana. Ele, Alejandro Gonzáles Iñárritu e
Alfonso Cuarón (também produtor do filme) são exemplos de cineastas que nunca
deixaram de imprimir sua marca autoral em suas produções, mesmo com as amarras
dos grandes estúdios. Coincidentemente, ou não, todos os três são produtos
de um povo que até hoje é tratado com desprezo pelos norte-americanos. O preconceito
está longe de acabar, mas o talento e o sucesso dos três é a melhor resposta.
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