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Babel
Babel
EUA, 2006
Drama - 142 min |
Direção:
Alejandro González Iñárritu
Roteiro: Guillermo Arriaga
Elenco:
Cate Blanchett, Brad
Pitt, Gael García Bernal, Jamie McBride, Kôji Yakusho,
Lynsey Beauchamp, Paul Terrell Clayton, Fernandez Mattos Dulce,
Nathan Gamble, Adriana Barraza, Mohammed Bennani, Clifton Collins
Jr., Elle Fanning
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Segundo a teoria do caos, o bater de asas de
uma borboleta no Japão pode causar catástrofes do outro lado do Oceano. O
cineasta Alejandro González Iñáritu acredita plenamente neste pensamento.
Na sua obra, um cachorro, um atropelamento ou um simples rifle podem desencadear
uma série de eventos catastróficos. Babel (2006) chega para
completar a trilogia iniciada há seis anos com Amores brutos (2000)
e 21
gramas (2003). O título remete à Torre de Babel, uma referência
bíblica à idéia de pessoas que falam línguas diferentes e não conseguem estabelecer
comunicação entre si.
O roteirista Guillermo Arriaga, parceiro
de Iñáritu também nos filmes anteriores, coloca a ação em quatro países diferentes
(Marrocos, Estados Unidos, México e Japão) e, conseqüentemente, em quatro
línguas distintas. O filme começa no deserto do Marrocos, onde um pai de família
compra um rifle para proteger suas cabras dos chacais. Como trabalha fora,
ele deixa a arma com seus dois filhos menores (os atores mirins estreantes
Said Tarchani e Boubker Ait El Caid). Eles resolvem testar o
limite de alcance do novo brinquedo. O menor, que sabe atirar, mira em um
ônibus que passa na distante estrada desértica. Nele estão viajando Susan
(Cate Blanchett) e Richard (Brad Pitt). O tiro acerta a mulher
na altura do ombro, provocando pânico dentro do ônibus.
Nos Estados Unidos, Amelia (Adriana Barraza),
a babá que toma conta dos filhos de Richard, recebe um telefonema avisando
que Susan está hospitalizada. Mexicana, Amelia mora ilegalmente nos Estados
Unidos há 16 anos. Com medo de perder o casamento do seu filho, no México,
ela resolve cruzar a fronteira levando as crianças com Santiago (Gael García
Bernal), seu sobrinho.
Enquanto isso, a jovem surda-muda Chieko (Rinko
Kikuchi) fica sabendo da tragédia que aconteceu na África através dos
noticiários japoneses. Mas a sua ligação com os demais eventos só será mostrada
com o desenrolar da trama.
Mais do que coincidências
Para alguns o filme pode parecer uma colcha
de retalhos de impossíveis coincidências, com uma forte manipulação emocional.
Mas isso não importa. O objetivo de Iñáritu é mostrar que neste mundo globalizado,
as pessoas estão cada vez mais distantes. Falta uma verdadeira comunicação
desprovida de preconceitos e desde o 11 de Setembro a paranóia se instaurou.
Depois que Susan é atingida, os outros turistas do ônibus ficam desesperados,
achando que estão na mira de um novo ataque terrorista. Os únicos sentimentos
que a globalização parece ter propagado pelo mundo são a violência e o medo
de se tornar mais uma vítima.
Para Iñáritu, a conseqüência disso tudo é o
isolamento. Susan e Richard estão afastados um do outro. Eles não se perdoam
por terem perdido um filho. Culpam um ao outro e a si mesmos. Amelia se isolou
de sua família ao tentar uma vida melhor nos Estados Unidos. No Marrocos,
é a falta de um adulto por perto que faz com que duas crianças utilizem uma
arma de fogo como brinquedo.
E no Japão, onde existe uma enorme cobrança
por sucesso, tudo o que se vê é a solidão. Yasujiro (o veterano e ótimo ator
Koji Yokusho), o pai de Chieko, é um rico e bem sucedido empresário
que na sua caminhada para o sucesso foi se isolando cada vez mais da família.
As cenas mais marcantes e poéticas mostram Chieko dentro de uma discoteca
barulhenta com luzes berrantes. Iñáritu alterna momentos de extremo silêncio
com ensurdecedores silêncios, mostrando que mesmo em um lugar repleto de pessoas,
a solidão pode ser a sua única companheira. Chega a provocar lágrimas.
Todos falam a língua do cinema
O elenco está soberbo. Iñáritu sabe tirar o
melhor de seus intérpretes. Veteranos, estrelas e estreantes desenvolvem seus
personagens com idênticas camadas de profundidade, mesmo tendo diferentes
níveis de exposições na tela. É gratificante observar que os meninos no Marrocos
conseguem interpretações tão apaixonantes quanto os consagrados Brad Pitt
e Cate Blanchett. Vale destacar ainda os trabalhos de Adriana Barraza (que
merecia uma indicação ao Oscar) e da estreante Rinko Kikuchi, que mesmo sem
falar usa toda a sua expressão e linguagem corporal para demonstrar seus sentimentos.
Do ponto de vista técnico, Iñáritu se cercou
do melhor e o resultado final é um arroubo visual e sonoro. Rodrigo Prieto
faz um excelente trabalho de fotografia. Com extrema competência, ele consegue
mesclar os diferentes cenários sem deixar o contraste de cores entre a moderna
cidade de Tóquio, o deserto do Marrocos e a pobreza do México se sobressaírem
uns sobre os outros. A música de Gustavo Santaolalla (ganhador do Oscar
por O Segredo de Brokeback Mountain) completa as cenas, surgindo hipnoticamente
após longos silêncios.
Todo esse trabalho de excelência levou Iñáritu
a ser premiado no festival de Cannes deste ano como Melhor Diretor. Sua narrativa
imagética corrobora as mensagens sobre a solidão e a falta de comunicação.
Mesmo com celulares, internet e satélites ainda não conseguimos transpor barreiras
culturais e lingüísticas. A câmera de Iñáritu registra cada um desses momentos
de perto, colada nos personagens como se buscasse uma solução. É a linguagem
cinematográfica em todo o seu esplendor.