 |
| |
O ilusionista
The Illusionist
EUA/República
Tcheca, 2006
Drama - 110 min |
| Direção
e roteiro: Neil Burger
Elenco: Edward Norton, Paul
Giamatti, Jessica Biel, Rufus Sewell, Eddie Marsan, Jake Wood,
Tom Fisher, Aaron Johnson, Eleanor Tomlinson, Karl Johnson |
|
 |
 |
 |
Em Hollywood, basta surgir um projeto interessante,
que ele logo acaba se tornando dois. As idéias parecem nascer em pares
nas cabeças dos executivos norte-americanos. Desta vez, o tema em questão
é a mágica. Enquanto aguardamos ansiosamente The Prestige,
de Christopher Nolan, O Ilusionista (The Illusionist,
2006), de Neil Burger, sai na frente com uma proposta nostálgica
e muito bem realizada. Um filme repleto de imaginação e mistério.
Mesmo sendo o seu segundo longa-metragem - o primeiro com dois excelentes atores
-, Burger dirige como veterano.
O projeto é baseado no conto “Eisenheim,
the Illusionist”, escrito por Steven Milhauser, ganhador do
prêmio Pulitzer em 1997 pelo livro The Tale of an American Dreamer.
Na trama, um garoto humilde que mora na cidade de Viena se torna um apaixonado
por ilusionismo depois de conhecer um mágico na estrada.
Ainda jovem, ele conhece uma linda menina chamada
Sophie. Ela pertence à aristocracia local e mesmo com todas as diferenças,
os dois desenvolvem uma forte relação de amizade. Porém,
devido às diferenças sociais, eles são proibidos de se
verem.
Sem alternativa, o garoto resolve sair pelo mundo
para aperfeiçoar a sua mágica. Anos depois, quando ele retorna
à cidade, é um famoso ilusionista conhecido como Eisenheim. Suas
apresentações despertam a curiosidade de um dos mais poderosos
e céticos homens da Europa, o Príncipe Leopold. Quando Sophie,
noiva de Leopold, é chamada ao palco para participar de um número,
ela logo reconhece seu antigo amigo. A pedido do príncipe, o mágico
é convidado a fazer uma apresentação diante da nobreza.
Certo de que seus truques não passam de fraudes, Leopold está
disposto a desmascará-lo, mas acaba sendo humilhado na frente de todos.
Para piorar, Eisenheim e Sophie iniciam um romance clandestino. O príncipe
delega ao inspetor Uhl a missão de expor a verdade por trás do
trabalho do mágico. A partir daí começa um jogo de gato
e rato entre os dois.
Cinema mágico
Da história original, Neil Burger só
aproveitou o nome Eisenheim e algumas outras características. A grande
inspiração para o seu roteiro são mesmo os filmes do começo
do século 20. E fica impossível não associar este projeto
ao trabalho do francês George Méliès, o mágico que
se tornou cineasta. Foi ele que, no início da sétima arte, introduziu
no cinema o enredo, o desenvolvimento de personagens, a fantasia na narrativa
e uma série de efeitos especiais (slow motion, fades,
stop motion, truques com espelhos, entre outras técnicas).
Inspirado nesse momento mágico da história
do cinema, Neil Burger deu à sua narrativa uma aura de mistério.
Toda a estética do filme nos remete ao cinema mudo, com cenas pouco iluminadas
e etéreas. Até as técnicas de edição homenageiam
o fade em formato de bola tão usado na época.
O trabalho de fotografia de Dick Pope
é fantástico. Ele captura com perfeição
a impressionante arquitetura gótica da cidade de Praga, que serviu de
cenário para representar Viena. O responsável por transformar
uma cidade na outra é o cinegrafista Ondrej Nakvasil.
A trilha sonora do compositor Philip Glass completa perfeitamente
a narrativa alternando suspense e dramaticidade.
Mas mesmo com todo esse apuro técnico,
era necessário um elenco que proporcionasse credibilidade às situações
que estavam no roteiro. Para o papel de Eisenheim, temos Edward Norton,
um dos atores mais brilhantes de sua geração. É impossível
não ser hipnotizado quando ele está em cena realizando suas ilusões.
Quem interpreta o chefe inspetor de policia Uhl é Paul Giamatti.
Já está soando repetitivo dizer que ele constrói aqui mais
um personagem inesquecível. Rufus Sewell faz o Príncipe
Leopold e, mesmo sendo o vilão, ele vai construindo seu personagem sem
exagerar. Quem surpreende é Jessica Biel. Mais acostumada
a fazer papel de mocinha, ela não compromete como Sophie.
O trabalho dos atores não ficou restrito
ao talento interpretativo, especialmente no caso de Edward Norton. O ator foi
treinado pelo ilusionista David Blaine. Muitas cenas foram
feitas usando truques simples de magia, evitando-se ao máximo os efeitos
especiais de última geração. Com essa premissa, Burger
procurou ser o mais real possível, mesmo utilizando várias licenças
poéticas no campo das artes, religião e política. Sua intenção
era realizar um filme que ficasse no limite entre o sonho e a realidade, entre
o consciente e o subconsciente. Não é à toa que escolheu
Viena para ambientar a sua história. Freud ficaria orgulhoso.