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Miami
Vice
Miami Vice
EUA, 2006
Policial - 134 min |
Direção
e roteiro: Michael
Mann
Elenco: Colin Farrell, Jamie Foxx, Li Gong, Luis
Tosar, Naomie Harris, John Ortiz, Barry Shabaka Henley, Ciarán
Hinds, Elizabeth Rodriguez, Justin Theroux |
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Como quase tudo que era moda em 1984, a série
Miami Vice se equilibrava entre o cool e o brega. Muito antes
do surgimento dos metrossexuais, os detetives interpretados por Philip
Michael Thomas e Don Johnson já andavam em conversíveis por Miami
Beach, com seus ternos bem cortados e distintivos brilhando. Mas vez ou outra
usavam umas roupas prateadas e ostentavam sempre aquele ridículo sapato mocassim
branco...
22 anos depois, Miami Vice vira
filme escrito, produzido e dirigido por Michael Mann, produtor executivo
da telessérie, ao lado de Anthony Yarkovich. Os tempos passaram, as
modas são outras, mas é incrível constatar que as novas aventuras de Ricardo
Rico Tubbs e James Sonny Crockett, agora interpretados respectivamente
por Jamie Foxx e Colin Farrell, continuam balançando entre o
kitsch e o altamente estiloso.
Primeiro, não custa avisar. O filme não é uma
paródia do original, como ocorreu recentemente com Starsky
and Hutch. Mann leva o seu trabalho a sério - e não economiza
na violência. Na história, os detetives Ricardo e Sonny trabalham no condado
de Miami-Dade desbaratando criminosos locais, cafetões, traficantes, donos
de boates. Quando um de seus informantes morre - cena impactante, como uma
senha que destrava os fortes grafismos do filme - eles ficam sabendo que uma
operação internacional do FBI está em curso na região.
Espiões da agência estavam infiltrados numa
negociação de drogas com um grupo de neonazistas. De alguma forma, os agentes
foram desmascarados e mortos. Como Ricardo e Sonny caem de pára-quedas na
situação, são os únicos cuja identidade não é conhecida pelos bandidos. Começa
aí uma trama que vai passar pelo Paraguai, Uruguai, Foz do Iguaçu, Barranquilla,
Haiti, Havana, até voltar a Miami. No caminho, um chefão tipo Pablo Escobar
(Luis Tosar, de Segunda-feira ao sol), um negociador desconfiado
(John Ortiz) e uma bela executiva do tráfico (a estrela chinesa Gong
Li, de 2046).
Mann utiliza aqui a mesma câmera digital empregada
em Colateral,
o que propicia tomadas noturnas granuladas e - seu diferencial - boa definição
de cores. A fotografia fica mais realista. É o tipo de elemento imprescindível
para tornar mais palpável um produto tão estereotipado quanto o Miami Vice
que a maioria das pessoas tem em mente. E Mann tem inegável estilo. Perto
das suas sequências automobilísticas, plásticas e minimalistas, os tunados
de Velozes e Furiosos parecem um circo de Hot Wheels.
Há coisas, porém, que fogem ao controle de
Mann. A maioria delas responde pelo nome de Colin Farrell.
Aí o lado cafona de Miami aflora. Não é só
a careta de galã latino que o ator irlandês se impõe. As filmagens coincidiram
com a sua fase mais crítica de entra-e-sai de clínica de reabilitação. E dá
para perceber, entre uma tomada e outra, quando Farrell faz aqueles olhos
virados, os momentos em que a saúde mental baqueia. A quantidade de tiques
é grande - com uma mão, ajeita o cabelo, com a outra, alisa o canto do bigodón...
A Jamie Foxx cabe o ingrato papel de escada. E, para não ser injusto, Foxx
arrebenta quando lhe é pedido. O cara é a síntese do cool.
Farrell, por outro lado, é o cool de
laboratório, e aí a diferença fica visível. O fato da história ser calcada
basicamente no conflito moral vivido por Sonny Crockett - o que exigiria do
ator algo além dos trejeitos - implode Miami Vice de uma maneira quase
fatal. Mann segura até onde pode. Filma tiroteios com arrojo. Prende a câmera
aos corpos, sabe a hora de um bom close-up. E escancara os tais vícios
de Miami - uma cidade em que todos são profissionais no que fazem, mas de
súbito deixam-se levar pelo... calor - de uma maneira que a série poucas vezes
alcançava.
Ver um filme que compete de igual com o material
em que se baseia já vale o ingresso.