O milico se aproxima do carro de Zuzu Angel, no rádio toca a fita
que Chico Buarque gravou para ela. A música é Apesar de você, clássico
contra a ditadura. O sujeito aperta botão, bate, chuta, não consegue ejetar
a fita. O carro está semidestruído, mas a música não pára.
É um simbolismo óbvio? Sem dúvida. Mas é um dos raros momentos em que Zuzu
Angel (2006), longa baseado em história real, se torna cinema de fato
- narrado por meio das imagens, e não só das palavras.
A obra do diretor Sérgio Rezende se encaixa no subgênero dos filmes
políticos de denúncia. Patrícia Pillar interpreta Zuleika Angel Jones,
a Zuzu (1921-1976), uma das primeiras estilistas brasileiras a se destacar
internacionalmente, no início dos anos 70. Dentro de casa, o conflito. Seu
filho Stuart (Daniel de Oliveira, o Cazuza), militante de esquerda,
não se conforma que ela feche os olhos para a situação do país - pior que
isso, que ela até costure para esposa de general. Quando o rapaz desaparece,
depois de ser preso e torturado pelo exército, Zuzu toma um choque de realidade.
A reconstituição histórica é exemplar na medida em que repassa a carreira
de Zuzu antes e depois do caso. Suas coleções são como síntese do espírito
nacional - antes, estampas carmenmirandísticas, depois, figurinos frios com
imagens de pássaros engaiolados e anjos feridos. Pesquisa bem feita, direção
de arte cuidadosa... É o básico do produção nacional de hoje em dia; o público
não permite desleixo.
Acontece que é hora de avançar além do básico. E Zuzu Angel esbarra
em uma chaga que assola quase toda a nossa cinematografia: a dramaturgia.
Roteiros ultratrabalhados, diálogos afinados a ponto de não permitir improviso,
tudo passa por meticuloso tratamento antes da câmera começar a rodar. E o
que falta é justamente a invenção do momento, saber se emancipar, visualmente
falando, daquilo que está escrito no script. Falta, antes disso, saber traduzir
texto em imagem. Zuzu Angel é - com exceções como a mencionada acima,
ou a cena curiosa em que Elke Maravilha se encontra com sua intérprete
no filme, Luana Piovani - um longa-metragem de diálogos filmados.
Felizmente, não chega a ser um melodrama invasivo como Olga
- mas isso não significa que Zuzu Angel seja sóbrio. O trabalho de Rezende
- que há doze anos tratou do tema em Lamarca e até conseguiu que Paulo
Betti repetisse aqui o papel - não deixa de ser um filme de denúncia,
com as armadilhas que o subgênero impõe. A principal é transformar pessoas
em ideais. Stuart é mais uma personificação de uma ideologia do que um ser
humano que sente e raciocina. Reduzido e planificado, Daniel de Oliveira perde
força.
O mesmo aconteceria com Zuzu se Patrícia Pillar não tivesse tanta felicidade
em se encontrar dentro da personagem. Ela se supera. Mas escola de bons atores
é outra coisa que não falta ao Brasil. O problema ainda é o roteiro. O cineasta
cearense Karim Aïnouz tem uma posição consolidada a respeito. Em suas
palavras, odeia trama. Pode reparar: os filmes que têm o seu toque,
seja como diretor (Madame
Satã), seja como co-roteirista (Cidade
Baixa, Cinema,
aspirina e urubus), são absolutamente abertos no que diz respeito
ao script. E isso não significa só improvisar diálogos, mas eliminar redundâncias
narrativas, livrar-se de fórmulas e não se antecipar a escolhas.
É uma lição que poderia ser disseminada. Nos três filmes citados, fica parecendo
que os personagens escolhem rumos por si mesmos. No filme de Rezende, salta
aos olhos o caminho que escolhem para Zuzu.