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O
código Da Vinci
The Da Vinci Code
EUA, 2006
Suspense - 101 min |
Direção:
Ron Howard
Roteiro: Akiva Goldsman, baseado em livro de Dan
Brown
Elenco: Tom Hanks, Audrey Tautou, Ian McKellen,
Alfred Molina, Jürgen Prochnow, Paul Bettany, Jean Reno, Etienne
Chicot, Jean-Pierre Marielle, Clive Carter, Seth Gabel, Marie-Françoise
Audollent, David Bark-Jones, Jean-Yves Berteloot
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O ator William H. Macy estava estupefato
com a sangueira e as excentricidades da história de Fargo, filme de Joel
e Ethan Coen que ele estrelou em 1996. Foi então perguntar aos diretores
- já que o roteiro trazia o famoso baseado em história real - de onde
eles tiraram o tal caso verídico. Ah, isso é só uma brincadeira... nós inventamos
tudo, responderam. Mas... não podemos fazer isso!, retrucou Macy,
preocupado. Concluíram os irmãos Coen: Por quê não?.
Justamente: por que não? Que lei, que lastro é esse? O que difere
um filme inspirado em fatos de uma franca ficção? Ele é melhor por
causa disso? É mais respeitado, mais crível? Seria pior se fosse uma história
toda inventada? O Código Da Vinci seria o sucesso que é se Dan Brown
não tivesse estampado nas primeiras páginas o discutido atestado de veracidade?
Afinal, todo o barulho que a mídia faz em cima da obra não vai
além de especular se Maria Madalena era mesmo a mãe dos filhos de Jesus,
se Isaac Newton era mesmo um dos guardiões do Graal, se a Opus Dei
é esse diabo que pintam. Poucos trataram de estudar a narrativa em si, a
construção dos personagens, as fórmulas que Brown recicla. Se a crítica do filme
seguisse o caminho da polêmica da história real, rodaria em falso.
Que os historiadores se encarreguem de analisar os fatos. Os Coen diriam que
não importa a fonte de uma trama, seja o mundo real ou a imaginação. O que importa
é se ela funciona na tela.
E na tela O Código Da Vinci (The Da Vinci Code,
2006) funciona mal.
O diretor Ron Howard não é conhecido como
um autor, na acepção consagrada do termo, aquele artista que imprime uma marca
em toda a sua obra. Howard é o clássico carregador de piano. Segue o que está
escrito na receita, seja ela qual for - no caso, quando segue a receita do Oscar,
sai-se bem, como em Apollo 13 (1995), Uma
mente brilhante (2001) e A
luta pela esperança (2005). A fórmula aqui é a das adaptações literárias.
Nela, cabe ao diretor enxugar o que há de literal (descrições de espaços, fluxos
de consciência) e otimizar o que há de visual, a ação. Daí o primeiro problema
- de ação O Código Da Vinci tem pouco.
Com exceção de dois ou três clímaces dignos, o filme se compõe
basicamente de enunciados sobre teorias conspiratórias cristãs, em formato ilustrado
(algumas cenas de charadas e quebra-cabeças lembram Uma mente brilhante,
principalmente o deciframento do criptex). O especialista em símbolos Robert
Langdon (Tom Hanks) e o historiador Leigh Teabing (Sir Ian McKellen)
explicam à criptologista Sophie Neveu (Audrey Tautou), entre uma perseguição
e outra, que história é essa do Cálice Sagrado não ser cálice coisa nenhuma.
Para quem não leu o livro e toma contato com o material direto na telona, fica
parecendo que Brown recorreu ao romance policial apenas para embalar a tal teoria.
Que tipo de ação surge daí? É mais ou menos como colocar dois bibliotecários
num ringue de gel.
E já que estamos num dia de citações, o crítico do New York
Times, A.O. Scott, sintetizou: Esta é uma das poucas adaptações
de um livro que talvez tome mais tempo para assistir do que para ler.
Em outras palavras, não há nada que O Código
Da Vinci possa acrescentar - seja no formato, seja no conteúdo - ao gênero
do thriller. Pelo contrário, Howard desonra até os fundamentos da matéria. Um
deles é o de manter o espectador sempre confuso. Ora, se Teabing explica uma
coisa, Sophie repete o que ele disse em forma de pergunta, e Langdon explica
mais uma vez para deixar tudo mastigadinho, que raciocínio resta ao espectador?
A ferramenta digital de iluminar pedaços de um símbolo na parede, por exemplo,
como na cena da estrela de Davi, novamente para reiterar o que já estava claro,
é um acinte à inteligência da platéia.
Em Cannes, onde o filme ganhou sua première mundial, a pretensa
grande surpresa da história foi recebida com risos. Isso tem menos a ver com
o imbróglio criado por Brown e mais com a maneira como Howard o apresenta.
Alfred Hitchcock não era um teórico,
nem um historiador, mas uma lição sua deveria ter sido seguida aqui - a do MacGuffin.
(Parênteses para a explicação do próprio Hitch, livremente adaptada,
sobre o que é MacGuffin: dois sujeitos estão num trem, um deles com uma mala;
o que há na mala?, pergunta um; aqui nessa mala eu tenho um MacGuffin,
responde o outro; mas o que é um MacGuffin?, retruca o primeiro; MacGuffin
é uma arma de matar elefantes no Brasil, explica aquele com a mala; mas
no Brasil não há elefantes!, indigna-se o outro; ah, então não é um
MacGuffin, conclui o sujeito.)
Esse é o termo inventado pelo cineasta para designar aquele
objeto que não importa nada ao espectador, mas que vale a vida para o protagonista.
É a defunta do vizinho de Janela indiscreta (1954) e a pedra de urânio
de Interlúdio (1946), por exemplo. Aquela pedra é toda a razão pela qual
Cary Grant arrisca a vida de Ingrid Bergman. Para nós, porém,
dane-se a pedra: queremos ver o que acontece com o casal, como sua relação é
ameaçada, depois reerguida. Howard fracassa porque o filme, a teoria baseada
em fatos, é todo um gigantesco MacGuffin.
Não precisaria ser assim. Na verdade, é possível perceber aqui
e ali toques de dramaturgia, na maneira como Sophie representa o ideal solidário
do cristianismo, como Langdon e o Louvre são emblemas do ideal iluminista contra
as trevas não só da Opus Dei como da própria oficialidade católica. Mas o desenvolvimento
dos personagens não vai muito além, nem os conflitos de idéias. Todo mundo só
quer saber do circo das teorias. O Código Da Vinci é um fetiche para
conspirólatras.