Homossexualidade é um fenômeno genético ou social? Os defensores da segunda
opção - aqueles que acham que uma pessoa não nasce gay, mas torna-se gay -
têm no drama Meu amor de verão (My summer of love, 2004)
um provável aliado. As relações de causa e efeito no filme do polonês Pawel
Pawlikowski são mais do que óbvias.
Mona (Nathalie Press) leva a difícil vida da classe operária numa
cidadezinha soporífera de Yorkshire, costa do Reino Unido. Perdeu os pais.
Sofre na mão de um homem casado que só quer transar com ela. E precisa viver
com o irmão, Phil (Paddy Considine, de Terra
de sonhos), ex-presidiário, recém-convertido à palavra divina, num
pub transformado em templo de oração. Do outro lado, a bela e aborrecida
Tamsin (Emily Blunt) está só de passagem. A cidade é o refúgio de verão
de sua família endinheirada. A menina ignorada na imensidão da mansão, chorando
a perda da irmã que todos adoravam, enquanto o pai se encontra com sua amante
às escondidas.
Quando as duas se encontram, não é difícil antever que uma servirá de ombro
amigo para a outra - os homens não são dignos de nota e só as mulheres se
entendem, ainda mais quando a influência materna é ausente, são essas as mensagens
que não levam nem quinze minutos para se impor. E é verão, entre drinques
e banhos de sol Mona e Tamsin logo ficam mais do que amigas.
O lesbianismo de Meu amor de verão - filme baseado no primeiro romance
da inglesa Helen Cross, publicado em 2001 - tem muito mais de válvula
de escape social do que de pulsão. Como arma de transgressão, serve a propósitos
variados, desde ridicularizar a neo-crença de Phil até vingar a honra de amantes
e filhas humilhadas. Nesse ponto, lembra bastante Almas gêmeas (Heavenly
creatures, de Peter Jackson, 1994), ainda que não tão limítrofe. O livro
de Helen é muito mais engajado nesse sentido; Pawlikowski elimina muita coisa
na adaptação para fazer a história caber em 86 minutos.
Mas isso não significa que variantes viscerais como desejo, submissão e poder
estejam excluídas da equação. Pelo contrário, são elas que, subliminarmente,
alimentam as ações de Mona e Tamsin. Logo na primeira cena em que as duas
se encontram há o simbolismo-chave: Mona, estirada no campo, assiste contra
o sol à chegada da outra num cavalo branco. Depois as diferenças se acentuam.
A garota pobre local prova os vestidos que a nova amiga turista não usa mais.
Esta apresenta a Mona seus discos de Edith Piaf e algumas idéias de
Nietzsche. É evidente que constrói-se ali uma relação de dominação.
Não é necessário o falo, o membro, para que uma relação homossexual se
transforme nessa medição de forças. E o que Meu amor de verão tem de
mais interessante - isto é, o que tem de mais nebuloso e complexo em meio
a causas-consequências triviais - é esse embate que Tamsin e Mona travam mais
ou menos sem saber. A nervosa câmera na mão de Pawlikowski intensifica o conflito.
Como efeito colateral, freqüentemente o diretor pega pesado demais na medida,
como se tentasse tirar, com close-ups permanentes, mais significados
dos rostos das atrizes do que elas são capazes de fornecer.
Entre prós e contras, o filme fica no zero-a-zero. Sua aceitação no cinema
dependerá muito da tolerância do espectador aos maneirismos de Pawlikowski.
Dependerá, também, de seu interesse e suas reflexões acerca do tema central.