Já fazia algum tempo que Pierce Brosnan tentava afastar-se da sombra
de James Bond, personagem que ele viveu quatro vezes nas telonas. Buscou refúgio
nas comédias românticas, ao lado de Julianne Moore em Leis da atração (2004)
e tentou viver trambiqueiros sedutores em Ladrão de diamantes (2004)
e Thomas Crown - A arte do crime (1999). Todos são razoáveis, mas só
agora ele conseguiu quebrar de vez seus vínculos com o 007.
Pra começar, foi substituído na franquia do espião por Daniel Craig, na tentativa
dos produtores de reiniciarem a cinessérie com Cassino Royale. Depois,
ao aceitar o papel principal da comédia O Matador (The matador,
2005), o irlandês dá o melhor passo de sua carreira pós-Bond.
Na pele de Julian Noble, Brosnan surge absurdamente brega nas telonas,
contrariando a figura que alimentava desde o surgimento na série de TV Remington
Steele. Com um bigodinho lamentável, figurino de bicheiro, jeitão chucro
e caretas que lembram os melhores momentos de Jack Nicholson, o ator está
absolutamente impecável no papel, um verdadeiro Bizarro Bond, como aquele
inimigo do Super-Homem que é o inverso perfeito do Homem de Aço.
Na trama, Brosnan vive um assassino profissional, viciado em álcool e mulheres
fáceis, que sofre um ataque de pânico durante uma execução. Trabalhando para
a máfia, descola uma segunda chance e parte para a Cidade do México, onde,
em meio a galões de mojito, precisa acabar com um novo alvo. Mas ele fica
solitário ao se lembrar de seu aniversário e vai em busca de novas amizades
no bar do hotel. Acaba encontrando um executivo fracassado (Greg Kinnear,
no milésimo papel afável de sua carreira), que está na cidade para tentar
emplacar um fornecimento de camisas. As circunstâncias favorecem o início
de uma estranha relação entre os dois, que culmina em situações inusitadas
e algumas boas reviravoltas.
O pouco conhecido Richard Shepard (Perigo na Cidade do México)
escreveu o roteiro e dirigiu o filme, que o coloca numa seleta lista dos diretores
a serem acompanhados daqui pra frente, numa linha que lembra um pouco os irmãos
Coen. O cineasta escreve diálogos engraçadíssimos, transformando o personagem
de Noble em verdadeira metralhadora de baboseiras, e tem idéias igualmente
divertidas - daquelas que ninguém vê chegando.
O diretor demonstrou talento também ao transformar a Cidade do México em
meia-dúzia de cenários diferentes. O filme, com razoável orçamento de 25 milhões
de dólares, foi rodado inteiro por lá, mas tem cenas em que a cidade mimetiza
Praga, Viena e outras metrópoles européias. Basta colocar uns branquelos em
quadro, encostar a câmera num pilar mais rebuscado e voilá, estamos
no centro europeu.
Mas toda esta falação sobre o filme pode ser resumida numa única passagem.
Bastaria exaltar uma cena particularmente memorável, em que Brosnan atravessa
bêbado o lobby do hotel trajando apenas sunga e botas, cujo desfecho,
sozinho, vale o filme. Ela é, literalmente, Matadora.