Ritmo de um sonho
Ritmo de um sonho
 |
| |
Ritmo
de um sonho
Hustle & Flow
EUA, 2005
Drama - 116 min |
Direção
e roteiro: Craig Brewer
Elenco: Terrence Howard, Anthony Anderson, Taryn
Manning, Taraji P. Henson, DJ Qualls, Paula Jai Parker, Elise Neal,
Isaac Hayes, Ludacris, Jordan Houston, Haystak, Claude Phillips,
Josey Scott |
|
 |
 |
 |
O independente Ritmo de um sonho
(Hustle and flow, 2005) obteve o que poucas produções do
gênero conseguem. Emplacou uma distribuição pela gigante Paramount,
ao lado da MTV Films, e iniciou uma boa carreira, coroada com a indicação
ao Oscar 2006 de Melhor ator para Terrence Howard. Nada mau para
um projeto financiado com recursos próprios por John Singleton
(Quatro
irmãos) e Stephanie Allain (Corridas
clandestinas), sem qualquer nome de expressão, a começar
pelo roteirista e diretor Craig Brewer.
A história lembra longas tão diferentes quanto Rocky - um
lutador (1976) e, pelo próprio tema, 8
mile - Rua das ilusões (2002). Nela, um cafetão da cidade de
Memphis - a terra do blues - reencontra um amigo de colégio com quem
costumava fazer raps. Em meio ao trabalho diário - que inclui o fornecimento
de drogas, prostitutas e strippers aos locais de baixa renda - DJay
(Howard) começa a trabalhar com Key (Anthony Anderson)
na fita demo que pode mudar suas atuais existências. No caso do primeiro, o cotidiano se resume ao calor insuportável dentro do sedan bicolor de rodas cromadas que
dirige para negociar o atendimento de Nola (Taryn Manning,
dos oportunos 8
mile e o indie Dandelion)
em cantos pouco recomendáveis da cidade (o termo loureediano "Walk
in the Wild Side" nunca fez tanto sentido). Já para o amigo, dono de uma
vida confortável, o objetivo é escapar do tédio de seu
emprego como técnico de som em igrejas e juizados. A oportunidade surge quando Skinny Black (o rapper
de verdade Ludacris), artista criado ali e que se tornou um grande astro, volta à cidade para festejar
o Dia da Independência. Se conseguirem produzir a fita e entregá-la
ao músico, sua grande chance pode finalmente acontecer.
A premissa, a necessidade de legitimidade e a busca por algo que preencha o
vazio emocional, é escancaradamente batida e o filme passaria apressado,
como tantos pelos cinemas, não fosse Terrence Howard. O ator, que tem
uma excelente ponta em Crash
- No limite como um executivo da televisão, dá o sangue
ao filme. Na verdade, o carrega praticamente nas costas. Com seu sotaque gangsta-sulista carregado e a interpretação cheia
de nuances, de profundidade ambivalente, Howard vai muito além do que
a produção promete e transforma o drama hip-hop, suas
músicas e situações em algo a ser apreciado. Mérito
também de Brewer, que parece despontar como um bom diretor de atores,
já que até o normalmente execrável Anthony Anderson
(de bobagens como Canguru
Jack, Agente
Teen 2) aparece bastante competente e contido.
Outro problema do roteiro são as gaiolas em que ele coloca os personagens.
Não há espaço para as atrizes - Taryn Manning,
Taraji P. Henson, Elise Neal e Paula
Jai Parker - deixarem os estereótipos. Há apenas a prostituta
esperta, a prostituta ingrata e a prostituta amada e há também
a esposa resignada. É Howard que, assim como o gigolô Djay, comanda
a festa.
Mas não dá pra deixar de lado outro personagem principal de Ritmo
de um sonho. A música, parte fundamental da catarse, é competente,
contagiante e verossímil, já que é desenvolvida perante
os olhos - e ouvidos - do público. Não estranhe se você
sair cantarolando do cinema, mesmo que não tenha a menor competência
para o rap. É o Djay em você buscando algo melhor na vida.