O estroboscópio, peça onipresente nas boates-prostíbulos de Salvador, é um
dos símbolos fortes do poderoso Cidade Baixa (2005). A luz pulsa
o tempo todo como os altos e baixos do triângulo amoroso da história.
Menina com jeito de mulher, Karinna está deixando o quarto que tem foto de
Rodrigo Santoro na parede. No bar, ela pergunta por carona de estrada e quem
responde são os barqueiros Deco e Naldinho. Podem levá-la até Salvador em
troca de sexo, oferecem. Começa aí, no primeiro minuto de filme, uma relação
que vai gerar ciúme e rancor na capital.
Alice Braga, a pretendida de Buscapé em Cidade
de Deus, é quem vive Karinna. Lázaro Ramos (O
homem que copiava) e Wagner Moura (O
caminho das nuvens) são Deco e Naldinho. Os personagens têm muito
da personalidade dos atores. Karinna é meiga, mas determinada. Deco esconde
medos por trás da carranca. E Naldinho banca o impulsivo. Os dois se conhecem
de infância, administram o barco juntos, são inseparáveis, como os melhores
amigos Lázaro e Wagner.
A idéia do estroboscópio se encaixa bem aqui. Como na lâmpada que alterna
luz e escuridão em ritmo acelerado, a fim de garantir uma sensação truncada
de movimento, Cidade Baixa avança enquanto força o espectador a preencher
as lacunas, os escuros da trama. O que o roteiro oferece dos perfis de Deco
e Naldinho – cumplicidade em vida e morte, juras de amizade - é proporcional
ao que esconde – segredos de adolescência, rivalidades veladas, competição
em todos os níveis.
Falou-se até aqui apenas dos personagens e das atuações porque todo o trabalho
do diretor estreante em longas de ficção Sérgio Machado (do documentário
Onde a Terra acaba) foi pensado em função do trio. No material
cedido à imprensa, ele diz que não queria um tratado sociológico sobre a zona
portuária ou os bares de Salvador, apesar de titular o filme com a região
e enquadrar constantemente a população figurante. Queria falar de gente, de
pessoas que sentiriam a mesma coisa – medo, decepção, desespero, paixão, raiva
– se estivessem em qualquer outro lugar do mundo.
Esse investimento no pessoal começa pela preparação do elenco, papel de
Fátima Toledo (de Cidade de Deus). Profissional de pouca visibilidade
junto ao público, é ela quem esquenta os atores para a jornada carnal que
na tela parece de verdade. Foi Fátima quem disse no primeiro dia de ensaio:
Ninguém aqui vai compor personagem, vocês são vocês.
A opção pela câmera na mão e pela iluminação baixa também ajuda nesse privilégio
da liberdade cênica. Sem tripés ou holofotes ao redor, os atores podem se
movimentar, improvisar, extravasar – a câmera é quem corre para acompanhá-los.
O resultado é uma película com tom de urgência, granulada, de cores vivas
e tons que vão sem medo do preto completo ao branco cegante, novamente como
a luz estroboscópica.
Em resumo, trata-se do tipo de filme em que tudo funciona em sintonia, desde
o apego ao roteiro (co-assinado com Karim Aïnouz, diretor de Madame
Satã) até a direção de fotografia firme (de Toca Seabra, que só
pelos maravilhosos close-ups do final do filme já mereceria um prêmio).
Mas mesmo com todo o altíssimo cálculo e cuidado, o que fica é a invenção
do momento, aquele diálogo ou toque ou troca de olhares imprevistos, aquela
tomada espirituosa que os atores não conseguiriam repetir uma segunda vez.
Desculpe se a sinopse foi breve. Não seria justo antecipar uma fração da
experiência de conhecer Cidade Baixa no cinema, que é uma coisa indizível.