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Superescola
de heróis
Sky High
EUA, 2005
Aventura - 99 min |
Direção:
Mike Mitchell
Roteiro: Paul Hernandez, Bob
Schooley, Mark McCorkle, Jonathan Aibel, Glenn Berger, Matt Lopez
Elenco: Kelly Preston, Lynda Carter, Michael Angarano,
Danielle Panabaker, Mary Elizabeth Winstead, Bruce Campbell, Dave
Foley, Steven Strait, Kurt Russell |
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Talvez o grande segredo do mestre Walt Disney
ao exercer o seu habitual fascínio nas crianças de todas as idades, gente grande
inclusive, é ziguezaguear entre o universo absolutamente imaginário e desprovido
das leis da matéria física, e a realidade osseocarnal dos mortais terráqueos.
Superescola de Heróis (Sky High, 2005) não só não foge
como ainda sedimenta esta regra. Baseado e chupinhado em tantos outros congêneres
fictícios, muitos deles da própria casa, este filme estabelece conexões mais
próximas com o recente Os Incríveis, na sua razão inversa. Nessa animação
da Pixar, os personagens são inspirados nos amálgamas do corpo humano, mas não
são humanos. São criaturas de computador moldadas em uma referência daquilo
que poderia ser definido como matéria viva e orgânica. São bonecos, pra lá de
virtuais, traduzidos em imagens, que imitam as ações e reações do homo sapiens.
Super-heróis que, como dificilmente imaginamos, são trazidos para o cotidiano
prosaico do âmbito caótico familiar. Pai obeso e deprimido, mãe dona-de-casa
atarefada, filhos na crise da adolescência.
Superescola de Heróis aborda também
mais ou menos isso, ou exatamente o contrário. Há sim uma família, capitaneada
pelo casal Comandante (Kurt Russell) e Super Jato (Kelly Preston).
É a dupla mais famosa e poderosa do planeta onde vivem, graças à combinação
matrimonial de força e velocidade nas suas ações de combate ao crime. No entanto,
essa dupla dinâmica e fantasiosa é interpretada por gente que não nasceu numa
CPU, mas sim numa maternidade. Embora nunca os tenha visto, sei que existem
de verdade. E, ao invés de dar atenção aos detalhes monótonos do dia-a-dia
familiar, Superescola coloca a prática dos superpoderes com a maior
naturalidade. Movem-se telepaticamente objetos como se estivesse indo à feira.
Levanta-se um automóvel com o mesmo esforço de escovar os dentes.
O filme se apresenta totalmente fora da realidade
como a concebemos. Os créditos iniciais são acompanhados por ilustrações de
história em quadrinhos. Indica-se claramente que tudo é construído e orquestrado
dentro de um projeto atópico. E, depois dessa performance folhetinesca juvenil,
mergulha-se sem maiores conflitos nessa Ilha da Fantasia.
Superescola é uma mistura de Patinho
Feio com Liga Extraordinária. Will Stronghold (Michael Angarano)
sente-se envergonhado de não ter nascido com superpoderes. Esconde essa fraqueza
dos seus pais, fingindo fazer halterofilismo com discos ultrapesados. Ironicamente,
ao som da oitentista Everybody wants to rule the world, música do Tears
for Fears. Vai pra escola, onde será obrigado a conviver com colegas que ou
são mestres nos dons paranormais, ou estão em estágio avançado de aprendizado.
Garota que se multiplica, homem-elástico, moleque franzino que quintuplica
seu tamanho são alguns dos catedráticos com quem terá de conviver.
Claro que, como todo filme Disney, esta película
obedece aos ditames tradicionais e conservadores da sociedade estadunidense.
Não há maiores confrontos de valores éticos e morais, tampouco agressões físico-verbais
aos bons costumes. Embora disforme em sua natureza, toda a composição cênica
é quadradinha. Tudo é muito mórmon nessa academia de ensino de prodígios.
Há sim, de leve, pequenos arranhões na perfeita ordem social. O técnico Boomer
(Bruce Campbell), examinador responsável por aplicar as provas de habilidades
aos estudantes e classificá-los em heróis ou assistentes, não usa as práticas
mais ortodoxas em seus métodos. Isso mostra que, por mais perfeita e mediúnica
que seja uma organização, nos seus núcleos de formação de base há um trabalho
preconceituoso e sujo. Sujinho, vai.
Tiradas as excentricidades vistas na capacidade
de transformação do esqueleto, a maior graça do filme, resta pouca história
pra contar. É mais um trabalho sobre adolescente rejeitado que não se envolve
com a gangue barra-pesada e se apaixona pela garota mais bonita do colégio.
É um argumento batido, agravado por uma solução de certa forma sacana nessa
condição de trabalhar o complexo de inferioridade.
Quando não há gente congelando, brilhando no
escuro ou virando gelatina, sobram frases de conteúdo positivista, fincado no
determinismo conformista da condição subdesenvolvida. O importante é aprender
é papo mais furado que discurso de time de futebol caindo pra Segunda Divisão.
Outra frase evoca ter orgulho de ser assistente (contente-se com sua miséria).
Um último exemplo a se citar é a prova de que não dá pra se transformar o mundo,
mas pode-se adquirir o desejado bem-estar nele: faça do limão uma limonada (não
tenho tudo o que amo, mas amo tudo o que tenho). Por mais estrambótico e encantador
que seja o liquidificador, consegue-se extrair pouco suco desse refresco de
auto-ajuda.
Érico Fuks é editor do site cinequanon.art.br