Quem gosta de cinema
acredita em certas lendas. Seja a nova aventura de Indiana Jones ou o
Napoleão que o Kubrick roteirizou, mas não filmou, há
uma série de projetos que os fãs torcem para ver nas telas. No
caso de Terra
dos mortos
(Land of the dead, 2005), a quarta parte da série de George
A. Romero sobre zumbis, a espera foi de apenas vinte anos.
Ironicamente, Romero
só conseguiu dinheiro para realizar o projeto graças ao êxito
relativo de cópias baratas do seu trabalho, como Extermínio
(2002) e Resident
Evil (2002). Vale lembrar que todos os filmes de zumbis feitos depois
de 1968, sejam eles bons ou ruins, são cópias de Romero. A
noite dos mortos-vivos (Night of the living dead), mito fundador
do gênero, enterrou de vez o terror clássico no estilo Boris Karloff
e abriu caminho para uma nova estética cinematográfica. O longa
marca o fim de uma era cientistas excêntricos, gargalhadas malévolas
e castelos mal-assombrados. Até mesmo o cemitério, onde começa
a história, é filmado num preto-e-branco granulado, sem firula
nem gelo seco.
Noite
dos mortos-vivos
Noite... abre
com Barbara (Judith ODea) e seu irmão indo deixar flores
no túmulo do pai. Perto da lápide, o sujeito se lembra de uma
bronca que tomou do avô naquele mesmo cemitério, graças
a uma brincadeira de mau-gosto. Ele repete a brincadeira e os dois discutem.
No fundo, o primeiro zumbi se aproxima. Depois de uma breve perseguição,
Barbara termina sozinha em uma casa cheia de cadáveres, todos prestes
a acordar. Daí em diante, a fita não dá um minuto de sossego
ao espectador, e o suspense vai se acumulando até transbordar no anticlímax
apocalíptico que antecede os créditos finais. Romero não
se rende a esquemas morais fáceis, conferindo à história
uma camada de ambigüidade, camada essa que sustenta Noite...
como um bom filme até os dias de hoje.
A grande sacada
do diretor é misturar ao suspense e ao horror uma forte dose de crítica
social. Lançado em 1968, ano do assassinato de Martin Luther King
e das grandes (e violentas) manifestações de Washington, o
filme tem no papel principal um negro. Para reforçar a idéia,
Ben (Duane Jones) é o único personagem do filme
que toma decisões sensatas, que não entra em estado catatônico
e que não parte para cima dos outros sobreviventes por ganância
ou medo. Trancados em uma casa e cercados por zumbis, o grupo de desconhecidos
tem ainda de lidar com a animosidade e com as brigas constantes. Romero nega
ser proposital, mas os brancos retratados em Noite... são ignorantes,
neuróticos, preconceituosos e (por que não dizer?) burros. Por
outro lado, o diretor transforma as milícias anti-zumbis em facções
disfarçadas da Ku Klux Klan – sem as máscaras e com respaldo popular.
Com o tempo, Noite...
foi perdendo a pecha de descolado e caiu, salvo em certos círculos,
na categoria de trash. Alguns diálogos viraram chavões
sofríveis e, mesmo toda a influência que exerceu no cinema de terror
acabou resumida ao aspecto repugnante da fita. Apocalipse Canibal,
Uma virgem entre os mortos-vivos e o clássico italiano Noites
eróticas dos mortos-vivos são todos filmes que se aproveitam
da nojeira na trilogia de Romero, deixando para trás o que há
de mais interessante nela. Perto de suas seqüências e filhos bastardos,
no entanto, Noite... é uma fita leve, que compensa a falta de
recursos financeiros com um roteiro impecável e uma fotografia crua e
realista. No mesmo ano em que Roman Polanski cutucava outro gênero
do terror com O bebê de Rosemary, Romero inaugurou o ramo que
ele só revisitaria uma década mais tarde.
Intervalo
Entre Noite
dos mortos vivos e Despertar dos mortos, Romero dirigiu dois filmes,
os esquisitos O exército do extermínio (The
crazies, 1973) e Martin (1977). No primeiro, um vírus
misterioso enlouquece os moradores de uma cidade no interior. Sob lei-marcial
e cercados pelo exército, os poucos habitantes que não foram acometidos
pela doença se organizam para furar o bloqueio dos militares. Em Martin,
um sujeito que acredita ser vampiro muda-se para uma cidade pacata, onde pretende
acabar de uma vez por todas com o hábito esquisito de beber sangue. Embora
um tanto calcados nas idéias de Noite..., ambos os filmes são
razoáveis, mas costumam ser lembrados pelos fãs como mero ensaio
do que estava por vir.
Despertar
dos mortos
Romero foi também
um dos primeiros a sacar o potencial cômico dos filmes de zumbis. Ainda
que infinitamente mais violenta e repulsiva do que Noite dos mortos vivos,
a seqüência Despertar dos mortos (Dawn of the
dead, 1978) é também uma sátira social sobre a humanidade
à beira do apocalipse. A fita se passa alguns meses depois do episódio
original, só que agora em uma cidade grande e infestada de zumbis. Enquanto
os funcionários de uma rede de televisão discutem se vão
ou não ficar no ar, um grupo da SWAT promove uma verdadeira matança
num prédio de apartamentos. No meio da confusão, dois funcionários
da TV e dois policiais da SWAT fogem em um helicóptero e pousam num shopping
center abandonado. Depois de promover uma limpeza nos zumbis residentes, a turma
se instala e os dias passam.
Tudo que o grupo
precisa, de armas à comida, pode ser encontrado no shopping. Conforme
essas necessidades básicas vão sendo substituídas por orgias
gastronômicas e roupas de grife, uma horda de zumbis passa a rodear o
estabelecimento. A idéia é clara: se o morto-vivo lembra de algum
lugar da sua vida anterior, esse lugar é um shopping center. Como no
recente Todo mundo quase morto (Shaun of the dead, 2004), somos
nós os zumbis canibais e acéfalos que vagam pelas cidades – daí
o bom-humor do filme. Também há espaço para bastante suspense
nas mais de duas horas de Despertar dos mortos. As cenas grotescas
criadas por Tom Savini, o “mago dos efeitos especiais”, ficam no meio
termo entre o perturbador e o cômico, o realista e o totalmente fantástico.
O enorme culto à fita vem, imagino eu, desse tom de absurdo que emerge
da bem bolada fusão entre terror e comédia.
Despertar dos
mortos tem uma legião de fãs e, para cada um deles, parece
haver também uma versão diferente do filme. Existe a clássica,
que foi aos cinemas em 1978, e a clássica em versão do diretor.
Para o lançamento europeu, o italiano Dario Argento cortou as
cenas engraçadas e injetou mais sangue e ação. Há
ainda uma versão sem cortes, longa e com problemas de andamento. Mais?
Uma segunda versão do diretor (a preferida de Romero), uma versão
inglesa sem cortes, uma versão sem censura da versão sem cortes,
duas versões alemãs, uma japonesa... e a lista prossegue. A que
saiu em bancas no Brasil é uma das longas e sem censura, mas não
sei bem qual. Como todas as outras, ela acompanha o inevitável aviso
que diz: “Pela primeira vez disponível em DVD...”. Está bom demais.
Intervalo
II
Depois de Despertar,
Romero dirigiu dois fracassos retumbantes. Cavaleiros de aço
(Knightriders, 1981), uma adaptação da fábula
do Rei Artur com motoqueiros, é um filme longo, enfadonho e cheio de
paradoxos religiosos mal realizados. Creepshow - Show de horrores
(1982), parceria com o escritor Stephen King, tem lá seus
momentos de originalidade, mas parece ter sido feito por outro cineasta. O único
mérito fica com Leslie Nielsen, que figura em uma das cinco histórias
da fita, todas tiradas de antigos gibis de terror.
Dessa vez, o retorno
ao mundo dos zumbis foi mais rápido.
Dia
dos mortos
Embora mantenha
alguns dos elementos de seus antecessores, Dia dos mortos (Day
of the dead, 1985) está um pouco abaixo deles. A história
se passa alguns meses depois de Despertar dos mortos, num mundo devastado
onde para cada ser humano normal há 400 mil mortos-vivos. O cenário
da vez é um complexo militar na Flórida, onde cientistas e soldados
tentam entender as causas do fenômeno. Apesar de contar com a melhor produção
de toda a série e um roteiro bastante razoável, falta algo da
novidade dos dois primeiros filmes. A graça toda fica com o zumbi “evoluído”
Bub (Sherman Howard), que tem até um lado sensível.
Dia dos mortos não chegar a ser ruim, mas segue a velha maldição
da trilogia com final capenga.
As
versões medonhas
Trinta anos depois
do lançamento original, resolveu-se que era hora de transformar Noite
dos mortos vivos em um outro filme. Claro! Para que deixar o clássico
lá tranqüilo se você pode cortar as melhores cenas, inserir
novos atores e tramas e ainda mudar completamente a trilha sonora? A tal edição
comemorativa consegue ser ainda pior do que a refilmagem de Noite... dirigida
por Tom Savini na década de 90.
Essa necessidade
patológica de recriar versões ruins de filmes bons rendeu também
um novo Madrugada dos mortos, cheio de trucagens e cortes de videoclipe.
Por sorte percebeu-se que, melhor do que refilmar as obras de Romero, era deixá-lo
fazer mais um filme de zumbis. Com orçamento decente e uma premissa ótima,
tudo indica que o diretor acertou a mão com Terra dos mortos.
O companheiro de cozinha que resenhou o filme disse que o mundo precisa de mais
Romeros. A isto eu adiciono: deixem eles filmarem!