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A
fantástica fábrica de chocolate
Charlie and the Chocolate Factory, EUA, 2005
Aventura - 106 min |
Direção:
Tim Burton
Roteiro: John August, baseado em livro de Roald
Dahl
Elenco: Johnny Depp, Freddie Highmore, David Kelly,
Helena Bonham Carter, Noah Taylor, Missi Pyle, James Fox, Deep Roy,
Christopher Lee, Adam Godley, Franziska Troegner, Annasophia Robb,
Julia Winter, Jordon Fry, Philip Wiegratz, Liz Smith, Eileen Essell,
Nitin Chandra Ganatra, Shelley Conn, Chris Cresswell, Philip Philmar,
Harry Taylor, Francesca Hunt
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A história do filme você deve conhecer.
O recluso Willy Wonka decide lançar um concurso mundial
para escolher quem poderá visitar sua fantástica fábrica,
fechada para o mundo há 15 anos. Assim, cinco crianças sortudas
- incluindo o garoto pobretão Charlie - encontram bilhetes dourados nas
barras de chocolate Wonka e ganham uma turnê pela lendária fábrica
de doces, iniciando uma incrível jornada...
Trata-se de um dos clássicos mais queridos
da Sessão da Tarde dentre a turma dos 20 e muitos: A
fantástica fábrica de chocolate (Willy Wonka & the Chocolate Factory, 1971). Tendo o consagrado Gene Wilder
como o excêntrico chocolateiro, a fantasia sobreviveu ao teste do tempo,
cativando também novas gerações e, melhor ainda, ganhou
status de ícone pop. Quem não se lembra da música
dos Umpa-Lumpas que atire o primeiro bombom.
Com tanto carinho pela obra cinematográfica,
era de se esperar que houvesse uma enxurrada de reclamações para
a Warner Bros quando foi anunciada a sua refilmagem. Não foi o caso.
Logo de início a Warner Bros informou que o responsável pela nova
adaptação do livro do britânico Road Dahl
(1916-1990) seria Tim
Burton, sujeito quase tão
peculiar quanto o personagem principal da aventura.
E Burton não decepcionou. Não só
traduziu em incríveis - e quase narcóticas! - imagens os cenários
imaginados por Dahl (ok, algo que o filme de 1971 também fez com louvor),
como também expandiu conceitos do livro e eliminou arestas do primeiro
longa.
Novamente trabalhando ao lado de John
August, roteirista de Peixe
grande, Burton propõe uma nova interpretação do
texto de Dahl com uma exploração do passado de Wonka, em busca
dos motivos que o tornaram um solitário fabricante de doces. O desenvolvimento
da novidade é um tanto batido, mas se encaixa perfeitamente na trama.
Afinal, se ela tivesse sido criada pelo próprio Dahl talvez não
tivesse ficado muito diferente, já que o autor e Burton são parecidíssimos
em seu senso de humor levemente distorcido.
Outra cena que encontrou pela primeira vez o
caminho das telas foi a da Sala das Nozes. Originalmente convertida no cinema
em uma Sala de Gansos dos Ovos de ouro, a seqüência exigia dezenas
de esquilos treinados, algo que deve ter assustado o diretor do original, Mel
Stuart. Mas hoje em dia, em tempos digitais, nada mais fácil
que colocar 40 Ticos e Tecos em cena. Felizmente, Burton não pensa assim,
em termos de zeros e uns. O cineasta enfiou quarenta bichos de verdade em seu
filme! E eles fazem valer a opção pelo realismo. O momento em
que a menina Veruca é subjugada pelas fofuras peludas seria aterrador,
não fosse o contexto pastelão. Sabe a cena do cavalo em O
chamado? Com o reflexo de Naomi Watts nos olhos do eqüino? É
quase a mesma coisa aqui. Só mesmo Burton pra incorporar algo
assim num filme infantil e passar incólume.
Mais uma das maravilhosas excentricidades do
diretor é a Sala de Televisão. Homenagem estética explícita
ao mestre Stanley Kubrick, a cena chega ao cúmulo de
incorporar momentos antológicos de 2001 - Uma odisséia no
espaço à ação. A criançada, claro, não
entende patavina, mas as gargalhadas adultas preenchem a sala. Isso sim é
diversão pra toda a família.
Burton também foi felicíssimo na
escalação do elenco. Todas as crianças - Augustus (Philip
Wiegratz), Veruca (Julia Winter), Mike (Jordan
Fry) e Violet (AnnaSophia Robb) - maquiadas e vestidas
de forma a parecerem caricatos estereótipos de má-criação,
estão perfeitas. O bonzinho Charlie (Freddie Highmore)
faz aquelas carinhas chorosas que já havia mostrado ao mundo em Em
busca da Terra do Nunca e o excelente David Kelly
faz um vovô Joe saído diretamente das páginas de Dahl. Mas
é na retomada de sua parceria com Johnny Depp que Burton
é ainda mais feliz, já que quanto mais bizarro o papel, mais o
ator parece empenhar-se em construí-lo.
Há dois anos, Depp apresentou ao mundo o engraçadíssimo
pirata Jack Sparrow, o Keith Richard da época das grandes navegações.
Agora, cria um Wonka que chega a ser perturbador de tão estranho. A referência
imediata ao personagem tem nome: Michael Jackson, ele também um rei das
esquisitices. A pele alva, a voz suave, as roupas extravagantes e a vida numa
terra de contos de fadas do chocolateiro remetem imediatamente ao rei do pop.
Mas Depp, provavelmente preocupado com a polêmica que o nome
de Jackson ainda causa com suas terríveis acusações,
nega tudo. Eu diria, se tivesse que compará-lo com alguém,
que seria mais um Howard Hughes, tipo reclusivo, bacterofobo, possessivo...,
tentou explicar o astro, sem sucesso. Afinal, se existe alguém pior que
Jackson é o Aviador Hughes. E não falo da versão
bonitinha recém-divulgada nas telas por Martin Scorsese! De qualquer
forma, o Wonka de Burton/Depp é sinistro, trágico e hilariante.
Tudo ao mesmo tempo. Igualzinho ao do livro.
E se tudo parece incrivelmente divertido até
aqui, ainda nem cheguei na melhor parte. Os novos Umpa-Lumpas (todos interpretados
pelo anão Deep Roy) são espetaculares. Literalmente.
Todos os números musicais, compostos e cantados por Danny Elfman,
são uma espécie de Moulin Rouge infantil. Os ritmos,
figurinos e coreografias se alternam num frenesi criativo surpreendente. Heavy
metal, Rap, Beatles, a Hollywood clássica e tantas outras referências
desfilam na telona. Nunca a cantoria num filme infantil foi tão bem-vinda!
Com tantos pontos positivos, dá pra afirmar
que A fantástica fábrica de chocolate (agora batizada em inglês como Charlie and the Chocolate Factory) de Burton não
só conseguiu ser o filme mais legal da temporada de férias 2005,
como também será lembrado pelas novas gerações com
o mesmo carinho que o original. Sem dúvida, um longa digno da gloriosa
Sessão da Tarde!