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Contra
Corrente
Undertow
EUA, 2004
Drama - 107 min |
Direção:
David Gordon Green
Roteiro: Joe Conway e David Gordon Green
Elenco: Jamie Bell, Kristen Stewart, Robert Longstreet,
Terry Loughlin, Dermot Mulroney, Devon Alan, Josh Lucas, Eddie Rouse,
Patrice Johnson, Charles Poston, Mark Darby Robinson, Pat Healy,
Leigh Hill |
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Seja no sertão
nordestino de Abril despedaçado (2001), nos confins argentinos
de O Pântano (2001), nas encostas sicilianas de Respiro
(2002), no vilarejo espanhol de O
sétimo dia (2004) ou, agora, nos lodaçais estadunidenses
de Contra corrente (Undertow, 2004), a lei que vigora é
a mesma: o determinismo. Famílias sem perspectiva social são os
motes dessas cinco obras, mas no caso deste filmaço indie de David
Gordon Green os peões dessa tragédia meio que fazem por merecer
a desgraça, nestes tempos anti-Bush: são os caipiras da chamada
América Profunda.
Sempre que perguntado
sobre o lugar de onde vem, o adolescente Chris Munn (Jamie Bell,
o famoso Billy
Elliot) diz que vem de lugar nenhum. Mas não é difícil
localizá-lo, por dedução: casas de alvenaria, pocilgas
no quintal, longas distâncias rurais, camisas de flanela xadrez, florestas,
rebocadores desdentados, cantoria gospel, sotaques puxados, fantasias de peregrinos
no Dia de Ação de Graças, recém-casados de carroça,
bonés de lenhador, botas de couro, caminhonetes desbotadas.
A região
entre o Centro-Oeste e o Sul dos EUA - que comporta, aliás, o Estado
do Alabama onde, há trinta anos, nasceu o diretor-revelação
Green - é a redoma que asfixia a família Munn. O pai, John
Munn (Dermot Mulroney, de As
confissões de Schmidt), vive em ponto morto depois que perdeu
a esposa. Sobraram os dois filhos, Chris e o caçula, Tim Munn (Devon
Alan). Os três não esperam muito da vida. Nem mesmo a cortar
os cabelos que já tampam a vista do irmão Chris se dispõe.
Vigiado para não
cometer os erros do pai quando jovem, basta que lhe virem as costas para Chris
largar os serviços do chiqueiro. Ele comete delinquências na cidade.
Corre à casa de uma garota. Mas ela não quer nada com ele. Ninguém
quer. Até o dia em que o seu tio, Deel Munn (Josh Lucas,
de Hulk), sai da cadeia e lhes presta uma visita.
Deel tem sérios assuntos a tratar com John. Ficamos sabendo do passado
nada glorioso dos irmãos. Coisas que podem ocorrer - e certamente ocorerrão
- à geração seguinte de irmãos, Chris e Tim.
Primitivismo
Essa herança
maldita, seleção natural aparentemente inescapável, tem
no riacho a sua alegoria e em Caronte (barqueiro na mitologia grega que levava
as almas ao inferno), o seu símbolo fúnebre, como conta John em
uma fábula familiar. As águas que se renovam na vizinhança
dos Munns são como as vidas que se sucedem em nome dessa harmonia do
caos.
Mas o nome do filme
é Contra corrente, é a reação ao determinismo.
O termo original, undertow, quer dizer recuo das ondas, mas também
significa uma idéia adormecida no fundo da mente. Se a primeira metade
de 108 minutos de filme mostra o peso do inconsciente coletivo em Chris, a tensa
metade final trata da tentativa de libertação, da sua excruciante
terapia.
Pois é inconscientemente
que Chris e Tim atravessam, em fuga, árvores e mais árvores, vilarejos
e ruas e jardins atrás não sabem bem do quê. Ainda que invasiva,
a orquestração um tanto lírica de Philip Glass (compositor
de As
Horas) acompanha bem essa metade do filme. Dá o tom do que parece
apenas um road-movie desembestado, quando na verdade é uma história
de formação de caráter dos jovens irmãos. E essa
formação passa obrigatoriamente pela desconstrução
da existência, por um certo primitivismo, desde provar o sabor de tinta
até entender as picadas de um parasita. A sequência em que Chris
recorre às mamas da vaca para matar a sede é emblemática.
Nesses momentos
Green demonstra afeto com as coisas da terra. Não é um diretor
que, como tantos, caricatura e condena a massa sulista por desconhecê-la.
Crítico construtivo, ele demonstra por meio do menino Tim - ainda que
de forma um tanto grotesca - que digerir o desconhecido não é
simples. Essa analogia entre o fisiológico e o comportamental, o orgânico
e o social, funcionou muito bem para Lucrecia Martel no citado O Pântano
(em que o lodo também é sinônimo de estagnação),
e dá certo aqui também.
Há outra
semelhança com os demais três filmes lembrados no início
do texto. No momento climático de Contra corrente, Chris sonha
estar diante do mar. Tradicionalmente no cinema é no mar que tudo se
resolve - e diferente do riacho, as ondas não seguem um único
curso, pelo contrário, abrem-se a correntes várias. Trata-se do
mesmo mar do desfecho que Emanuele Crialese, Walter Salles Jr. e Carlos Saura
assumiram para os supracitados trabalhos; a imensidão
do mar serve como o escapismo que livra os personagens do determinismo arraigado
na terra. Acontece que Green recusa a facilidade do escapismo. E Chris acorda
do sonho. Sem mar, ele terá que se resolver com o pai John, com o tio
Deel, com Caronte, com a corrente.