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Constantine
Constantine, 2005
EUA - 121 min.
Ação/Fantasia/Suspense |
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Francis Lawrence.
Roteiro: Kevin Brodbin e Frank
Cappello, baseados nos quadrinhos de Jamie Delano e Garth Ennis.
Elenco: Keanu Reeves, Rachel Weisz, Shia LaBeouf,
Djimon Hounsou, Max Baker, Pruitt Taylor Vince, Gavin Rossdale,
Tilda Swinton, Peter Stormare. |
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Antes de ser realizado, o primeiro filme de Harry
Potter passou por uma polêmica entre os fãs. Os produtores
queriam que o menino bruxo, um britânico, se transformasse em estadunidense
e que a aventura, toda passada na Inglaterra, cruzasse o Atlântico até
as terras ianques. Felizmente, a escritora Joanne Rowling bateu
o pé e exigiu o direito de aprovação de todos os elementos
da história com antecedência. Do contrário, o filme não
poderia ser realizado. Assim, todos os fãs puderam respirar aliviados
já que o Harry Potter que veriam nas telonas seria exatamente o mesmo
das páginas dos livros.
John Constantine, também
britânico, também bruxo, não teve a mesma sorte. Na adaptação
para o cinema do cultuado gibi Hellblazer,
parte da linha de quadrinhos adultos da DC/Vertigo, foi obrigado a perder o
sotaque, os cabelos loiros e a deixar de viver na terra da Rainha. Mas a comparação
entre os dois personagens pára por aqui. Diferente de Potter, os direitos
autorais de Constantine não pertencem a um autor (apesar dele ter sido
criado pelo genial inglês Alan Moore), mas sim a uma corporação.
E você sabe o que dizem das corporações... elas precisam
dar lucro. Dessa forma, para agradar o público norte-americano, todas
as referências à terra natal de Constantine foram apagadas e ele
tornou-se um cidadão dos Estados Unidos. A boa notícia é
que ele certamente não vota em George W. Bush.
Apesar das mudanças estéticas,
a alma cinza (tanto pela personalidade quanto pela fumaça de cigarro)
de Constantine permanece intacta. O velho ocultista dos quadrinhos mantém
seu charme, seu cinismo e o humor negro na versão hollywoodiana. O papel
título caiu como uma luva para o "predestinado" Keanu
Reeves (leia
entrevista), que viu casados com perfeição seus talentos notoriamente
limitados com a atitude blasé do personagem.
Na história das telas, Constantine é
um exorcista veterano, que cruza as ruas de Los Angeles atrás de qualquer
coisa que comprometa o equilíbrio das duas "superpotências
originais", o Céu e o Inferno.
Desde o início da humanidade, Deus e o Diabo mantêm um pacto:
podem influenciar o livre-arbítrio das pessoas, tentando levar suas almas
para um dos dois planos. Seus agentes são os mestiços, anjos e
demônios que caminham pela Terra disfarçados como nós.
Logo em sua infância, Constantine descobriu
ser um dos poucos humanos capazes de ver tais criaturas como elas realmente são.
O peso cobrado por essa habilidade levou-o a tentar o suicídio quando
jovem, o que selou suas chances de ir para o Céu quando morresse (lembre-se
que o ato é um pecado mortal para os católicos). Desde então,
ele dedicou sua vida à luta contra o demônio, como uma forma de
comprar sua entrada no Paraíso, mas sempre deixando claro seu desprezo
pelos dois lados da equilibrada equação.
As coisas começam a mudar quando uma série
de eventos prenuncia que algo bastante estranho está ocorrendo nos círculos
do inferno... obviamente, caberá ao anti-herói a missão
de descobrir a razão desses eventos e impedi-los de acontecer. Mas seu
tempo é escasso, pois além de tudo ele está com câncer
de pulmão e não deve durar muito.
Nessa missão, o ocultista encontra diversos
- e fantásticos - personagens coadjuvantes, como a detetive Angela
Dodson, vivida com a enorme competência habitual por Rachel
Weisz (O
júri). Católica devota, ela tenta provar a todo custo
que sua irmã gêmea não cometeu suicídio e sua investigação
a leva até o lendário John Constantine e à sua realidade
surrealista. Além de Weisz, Djimon Hounsou (Terra
de sonhos) também faz um ótimo trabalho como o feiticeiro
Papa Meia-Noite, dono de uma casa noturna que serve como território
neutro para anjos e demônios. Em um papel menos empolgante, como o demônio
Baltazar, há o vocalista da banda Bush, Gavin
Rossdale, que até parece interessante, mas empalidece quando
surge nas telas a fabulosa Tilda Swinton (Até
o fim). Ela interpreta o andrógino anjo Gabriel
de tal forma que o estilo do personagem deveria ser adotado também nos
quadrinhos. Por último, há o versátil Peter Stormare
(Minority
Report) como Lúcifer, que divide o fantástico
clímax - que contém as melhores cenas de toda a trama - com Keanu
Reeves.
Tecnicamente, o filme também agrada. O
talentoso diretor de videoclipes Francis
Lawrence criou uma atmosfera que dificilmente poderia ser mais
precisa, mesmo se o filme fosse passado no velho continente. Ele mantém
a história sempre ancorada na realidade, até quando somos levados
às profundezas do inferno, que surge como uma versão nuclear de
nosso próprio plano. Há apenas alguns pequenos deslizes, como
o excesso de computação gráfica numa briga contra um demônio
feito de insetos e um ou dois sustos gratuitos.
Ao final da projeção, Constantine
resulta competente e muito satisfatório, bastante superior à grande
maioria dos suspenses de Hollywood surgidos nos últimos dois ou três
anos. Os fãs mais ardorosos, claro, devem reclamar das mudanças,
mas não dá para culpá-los. Será que o público
reagiria tão mal assim se as características físicas do
personagem fossem mantidas? Não me lembro de Harry Potter ter ido mal
nas bilheterias...
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