Mas há, sim, luz nas paragens californianas.
Libelos críticos como A
última noite (25th Hour, de Spike Lee, 2002) e A
vila (The Village, de M. Night Shyamalan, 2004) mostram que
é possível tratar da sociedade do medo e da vida pós-11/9
sem ser simplista ou mesmo didático. Uma das personalidades mais engajadas
de Hollywood, Robert Redford também se manifesta. O filme que estrela,
Refém de uma vida (The Clearing,
2004), pode parecer só um suspense sobre um tenso seqüestro. Mas
fala, na verdade, de traumas muito maiores.
Gabaritado produtor de thrillers, o
holandês Pieter Jan Brugge estréia como roteirista
e diretor com espantosa desenvoltura. Na trama, Wayne Hayes (Redford) é
um bem-sucedido executivo. Nem tropeços nos negócios, nem um assumido
adultério abalaram a sua duradoura relação com Eileen (Helen
Mirren), casamento que rendeu um casal de filhos, já adultos.
Àquela altura, fica difícil dizer onde acaba a cumplicidade e
começa a acomodação, mas a rotina não parece incomodar
Eileen e Wayne. Certo dia, porém, ele é sequestrado por um ex-empregado
vingativo, Arnold (Willem Dafoe). Cabe a Eileen negociar o
pagamento do resgate.
Não há lugar para correrias ou
reviravoltas tipo O preço de um resgate (Ranson, de
Ron Howard, 1996). O relato aqui é mais sutil. Trata-se de um filme de
personagens, não de situações. Jan Brugge se escora na
narrativa não-linear para criar expectativas, mas o que lhe importa,
mesmo, são os pormenores psicológicos da sua metáfora geopolítica.
O empresário Wayne Hayes simboliza a bonança
norte-americana que, sem esperar, se vê agredido em casa por uma força
injustificável. Arnold, claro, tem a índole do terrorista. Redford
e Jan Brugge instalam então o diálogo que não ocorreu em
11 de setembro. Os personagens conversam numa floresta, a caminho do cativeiro.
Wayne procura cooperar, sensibilizar Arnold, mas logo o seu inconformismo se
destaca. "O que eu lhe fiz para merecer isso? Não me culpe pelo
seu fracasso", brada o acossado como se estivesse diante da horda
talebã.
Como um Bush vingativo, Wayne terá a chance
de vencer - no momento mais agudo do filme, na iluminada e chuvosa clareira
que dá nome ao filme, clearing que em inglês também
quer dizer "acerto de contas". Se Wayne aproveita ou não a
oportunidade diz muito da consciência de Robert Redford.
Já Eillen, diante da desgraça,
encontra uma certa redenção. Entre os esforços para caçar
o seqüestrador, aprende mais sobre o marido. No momento de dor, essa viagem
ao passado ajuda-a a resgatar a essência do seu casamento. É essa
a mensagem de auto-exame que o filme quer que os norte-americanos conservem:
antes de partirmos para o desespero do fundamentalismo bélico, que tal
olharmos com outros olhos para nós mesmos?
Você não precisa depreender essas entrelinhas para apreciar o
filme - mesmo porque as atuações habitualmente competentes de
Mirren e Redford encontram em um Willem Dafoe seguríssimo o seu surpreendente
contraponto. Mas entender o contexto enriquece a experiência.