Um dos maiores
medos das crianças é o "homem do saco", um cara que
vem te pegar se você não comer tudo, ou então te leva
embora se você ficar na rua até tarde. Varia de região
a região, pode ter nomes diferentes, mas é uma das lendas urbanas
que ajudam a manter as crianças na linha.
A vila construída
para o novo filme de M.
Night Shyamalan, diretor de Sexto Sentido, Corpo
Fechado e Sinais,
está aquém destes mitos modernos, afinal estamos no fim do século
19, em um lugar onde a revolução industrial ainda não chegou.
Mas isso não exclui o local de ter seus próprios medos, no caso,
criaturas conhecidas apenas como "Aqueles-de-quem-não-falamos".
Existe uma espécie de acordo entre os camponeses e os "Voldemorts"
que moram na floresta ao seu redor: os humanos não invadem os limites
da mata e aqueles estranhos seres que assombram a vila não entram na
pequena comunidade. Para controlá-los, existem rituais de oferenda de
animais e, por segurança, algumas torres de sentinela, de onde os jovens
montam guarda e patrulham as fronteiras entre um e outro.
Tudo ia bem até
que certo dia os animais do vilarejo começam a surgir mortos. O conselho
da vila, que reúne os mais velhos, convoca assembléia extraordinária
para tentar entender o que está acontecendo. Será que o pacto
foi quebrado e agora suas vidas estão em risco? Teria algum dos habitantes
da cidadezinha invadido o território das bestas e agora elas estão
fora do controle?
Esta é a
idéia inicial da nova história contada por Shyamalan, diretor
e roteirista de A Vila (The Village - 2004).
Mas, como já virou rotina em seus trabalhos próprios, esta é
apenas a ponta do iceberg. Acusado de ficar repetindo a fórmula
de grandes reviravoltas em todos os seus filmes, o diretor de ascendência
indiana não pode fazer outra coisa, a não ser se declarar culpado.
Porém, vale lembrar que cada um de seus filmes tem uma história
completamente diferente da anterior. O primeiro, aquele do menino que via pessoas
mortas, é sobre fantasmas e família. O segundo era uma ótima
história de super-heróis. E o seguinte falava de alienígenas
e da fé. Desta vez, ele mostra como o medo pode afetar uma comunidade.
Estrelas do campo
A Vila é
o primeiro trabalho de Adrien Brody a estrear no país
desde que ele ganhou o Oscar de melhor ator por O
Pianista. Crimes de um detetive (Singing Detective),
o único filme que ele fez entre sua parceria com Roman Polanski
e esta com Shyamalan, será lançado direto no vídeo
agora em setembro. Aqui, Brody mostra seu talento no papel de um deficiente
mental. Quem também tem problemas é Ivy Walker (Bryce
Dallas Howard), filha cega do líder da vila, Edward Walker (William
Hurt). Sigourney Weaver é subaproveitada como
Alice Hunt, membro do conselho local e mãe de Lucius (Joaquin
Phoenix), um jovem tímido, obediente, mas inquieto.
Além do ótimo elenco, Shyamalan soube reunir também uma excelente equipe técnica, que cuidou para que figurino e cenário remontassem à perfeição um pequeno vilarejo do século retrasado. Cada detalhe é meticulosamente pensado para que o espectador não perca o foco. Um bom exemplo é a inexistência de cavalos entre os animais, o que ajuda a "vende a idéia" de que os habitantes da vila não têm a menor intenção de sair dali.
E a fotografia de Roger Deakins (Uma mente brilhante, O Homem que não estava lá), junto à trilha sonora criada por James Newton Howard (Colateral, Peter Pan) embalam e criam o clima perfeito para o suspense, drama e (acredite) romance do filme.
"Mas se tudo é assim tão perfeito, por que tem tanta gente chiando?", você pode estar se perguntando. Shyamalan está agora andando em um terreno muito perigoso. Diferente de quando surpreendeu todo mundo em O sexto sentido, agora ele criou um fã-clube que quer ser surpreendido e isso nem sempre é possível. A expectativa criada é muito grande e tem mais lados negativos do que positivos. Se o espectador matar a charada muito cedo, o resto do filme fica sem graça, ou então, se ele achar que a explicação é pouco convicente, ele também sairá do cinema achando que pode pedir seu dinheiro de volta.
Talvez fosse a
hora dele parar de brincar de Hitchcock e mostrar que pode fazer ótimos
filmes também em outros gêneros (vale lembrar que antes da sua
"quadrilogia das viradas", ele escreveu e dirigiu Praying with
Anger, um filme semi-autobiográfico, e Olhos Abertos).
Aposto que isso surpreenderia muita gente. ;-)