Na última cena, George W. Bush
ganha a palavra. As imagens de arquivo exibem um pronunciamento acerca da Guerra
do Iraque, da queda do mesmo Saddam Hussein que driblou Bush
Pai em 1991. Revanchista, o presidente dos EUA evoca o que diz ser um ditado
texano: Se você me engana uma vez, você é o problema. Se me engana duas, o problema sou eu. Diretor e narrador do filme, Michael Moore
corta o discurso do candidato à reeleição. A sua voz até
ali maliciosamente mansa ganha tom de convocação: Nós
não vamos nos enganar de novo, Sr. Bush!
Podem condenar o cineasta bonachão por
qualquer crime - leviandade, oportunismo, exagero, manipulação,
má fé - menos por hipocrisia. Em nenhum dos momentos que precedem
o gran finale Moore assume para si as responsabilidades de um repórter,
de um historiador, muito menos de um documentarista. Fala, sim, com todas as
letras, de que lado está. Ele não esconde que o seu filme é
unicamente uma arma política e ideológica na luta contra Bush.
E pelo andar das premiações e das bilheterias, ninguém
parece se incomodar com o discurso enviesado do pseudodocumentário. Imparcialidade?
Não tem lugar em Fahrenheit 11 de setembro
(Fahrenheit 9/11, 2004), uma introdução sentimentalista
ao contexto político pós-WTC.
Tudo bem que Bush não é mesmo muito
difícil de desqualificar - o próprio presidente o faz quando gagueja
nomes em árabe. Não tem problema se o liberal mercado editorial
norte-americano recebe, a cada semana, um novo e bombástico livro-denúncia
contra o governo, a exemplo das recentes obras dos jornalistas Bob Woodward
e Greg Palast e dos ex-homens do governo Richard Clarke
e Paul ONeill. A pauta já está saturada, ninguém
apóia mais a guerra, já sabemos de que lado está o Bem.
Mas é irresistível seguir a cruzada de Michael Moore. Ele ganhará
uma estrela de cotação de jornal para cada caipira sulista que
converter aos democratas.
Caseiro, cronista, bombeiro
Não é difícil entender o
seu encanto. O produto Moore visa unir as minorias. Personifica os losers com
seu corpo rotundo, os nerds com o seu visual óculos/boné
e os marginalizados da classe baixa dos EUA com a sua camisa xadrez surrada
e o seu provincianismo de quem se diz, com orgulhosa reiteração,
um legítimo filho de cidade pequena. Moore defende o oprimido naquilo
que lhe é mais caro: a afronta ao sistema. Seja uma fábrica de
carros na sua Flint natal ou a maior rede de mercados do país, nenhum
organismo está imune à provocação.
Quem se oporia à tentação,
aqui, de vê-lo desafiar os deputados, a Embaixada da Arábia Saudita
e Bush em pessoa? Moore, o sujeito que desfila diante do Congresso num carro
de sorvete, é um homem do entretenimento, sabe disso, e deve ser tratado
como tal. Possui sarcasmo afiado - repare no breve riff da claptoniana
Cocaine quando é revista a carreira do presidente.
Ostenta eficiente senso de montagem - a cada mãe que chora pelo soldado
morto segue um discurso belicista do presidente, e vice-versa. Sabe como poucos
fazer perguntas constrangedoras sem a menor vergonha na cara. E ridiculariza
Bush com todo o capricho que economizou em Charlton Heston.
Mas Michael Moore não acerta sempre.
Por mais que o conteúdo de Fahrenheit seja mais consistente
que o de Tiros
em Columbine (Bowling for Columbine, 2002), as insinuações
que levanta entre a família Bush e os petroleiros do Oriente Médio
são rasas. Quando acusa um complô Bushes-sauditas-Bin Laden, por
exemplo, falta dizer que a família dirigente do país árabe,
americanófila, vive numa guerra interminável por poder contra
o milionário Osama, e não que são aliados de conspiração,
como o filme dá a entender.
O fato é que as grandes reportagens não
são a especialidade de Moore. Ele domina, com certeza, a área
da crônica social. Os melhores momentos da sua narrativa não falam
do Iraque, da Arábia, nem de Osama. Tratam com perspicácia e humor
do estado de terror que se instalou nos EUA. Assim, caseiramente, no seu quintal,
Moore reúne a propaganda do pára-quedas e do cofre antiterrorismo,
o caso do leite materno e do desabafo na ginástica, o policiamento em
aeroportos e o funesto Ato Patriota para fazer um retrato autêntico
da Nação do Medo.
É nesse instante que o título original
porcamente traduzido ao português melhor se justifica. Fahrenheit
451, romance publicado por Ray Bradbury em 1951, virou filme de
François Truffaut (1932-1984) em 1966 antes de servir de trocadilho em
2004. Na trama futurista, um governo ditatorial ordena que bombeiros incinerem
qualquer tipo de livro - 451º F é sua temperatura de combustão.
Um dos bombeiros percebe que aquilo ofende a liberdade de pensamento e revolta-se
contra todos. Fahrenheit 9/11 pode até ser um documentário
discutível, mas Michael Moore é um bombeiro imprescindível
no momento.