A moda dos filmes baseados em histórias
em quadrinhos começa a dar um tipo diferente de fruto. Depois de blockbusters
milionários, com adaptações de personagens famosos que
são conhecidos há décadas, e de produções
pequenas, saídas de HQs independentes, surge nos cinemas Hellboy,
o primeiro super-herói autoral a chegar às telas.
Diferente de Homem-Aranha, Batman ou
X-Men, Hellboy não pertence a uma grande companhia
multinacional. Nem ao menos teve milhares de equipes criativas diferentes durante
suas quatro ou cinco décadas de publicação. O dono de Hellboy
é um só, o quadrinhista Mike Mignola, o que garante
o padrão de qualidade de toda a série.
Desde 1994, ano em que publicou a primeira HQ
do demônio, misturando a mitologia de H.P.Lovecraft (1890-1937)
com aventuras no estilo de Indiana Jones, Mignola
controla tudo o que se refere ao seu personagem mais famoso. Em apenas uma década
- e pouquíssimas histórias, já que o ritmo do artista é
bastante lento - Hellboy tornou-se um dos mais cultuados personagens dos quadrinhos,
com uma legião de fãs que não precisa esquentar a cabeça
com fases e alterações de rumo nas histórias. Assim, uma
adaptação para as telas de suas histórias torna-se mais
fácil, já que a bagunça cronológica é mínima.
Por outro lado, é muito mais difícil, já que os fãs
têm idéias muito mais rígidas sobre como deve ser a produção.
Felizmente, o filme acabou nas mãos de
Guillermo
Del Toro (Blade
II, A
Espinha do Diabo), admirador confesso de Mignola, que decidiu encarar
o estúdio para que Hellboy saísse exatamente como ele
queria. "Não uma adaptação, mas uma homenagem",
segundo o ator Ron Perlman, que esteve divulgando o filme em
São Paulo (leia a entrevista aqui).
Pra começar, o diretor e roteirista -
que recusou a direção do terceiro Harry Potter para dedicar-se
ao demônio das HQs - exigiu a presença de Mignola na produção.
O artista dos quadrinhos, dono de um estilo carregadíssimo de personalidade,
aproveitou a experiência adquirida como designer em longas como
Atlantis - O reino perdido e Blade II, para participar ativamente
da pré-produção. Quem conhece os quadrinhos não
terá problema algum em identificar os traços do ilustrador no
filme. Cenários, equipamentos, figurinos, personagens... tudo reflete
os ângulos, iluminação marcada e o minimalismo do autor.
Não por acaso, ele acompanhou as filmagens em Praga e trabalhou cena
a cena com o diretor.
Outra das exigências de Del Toro - partilhada
por Mignola - foi a presença de Ron Perlman (Aliens: A ressurreição,
Ladrões de sonhos, Blade II) como o protagonista. O Revolution Studios,
claro, tentou fazer com que eles desistissem da idéia, afinal, colocar
um desconhecido como ator principal de uma produção de 60
milhões de dólares era, supostamente, um absurdo. No
final, a equipe criativa venceu e Perlman ficou. Difícil imaginar uma
decisão mais acertada. Não seria possível convencer um
grande astro hollywoodiano a suportar 4 a 6 horas da maquiagem do genial Rick
Baker (MiB, Planeta dos macacos) para esconder seu rosto sob
uma camada de tinta vermelha, próteses e chifres. Perlman, por outro
lado, já viveu tudo isso na telessérie A bela e a fera,
na qual vivia o atormentado "fera", Vincent.
Igualmente felizes foram as contratações
de Selma Blair, John Hurt, Doug Jones,
David Hyde Pierce e Rupert Evans para interpretarem
os coadjuvantes. A série Hellboy sempre teve em seus personagens
de apoio boa parte de seu apelo e o filme também os aproveita com grande
habilidade.
O roteiro de Del Toro aproveita as principais
idéias e personagens de "Sementes da destruição",
a primeira aventura de Hellboy nos quadrinhos, e confere a ela uma roupagem
mais moderninha ao explorar melhor a agência governamental que defende
a Terra de ameaças paranormais. A influência de outra adaptação
dos quadrinhos, Homens de Preto, é claramente sentida aqui,
mas nada da essência da HQ se perde no caminho. O refinado humor de Mignola,
a ação empolgante, os diálogos divertidos, a interessante
trama e, claro, a personalidade marcante do personagem principal (recriada com
exatidão por Perlman) encontram-se intactas na telona. A fidelidade ao
conceito é total e a adaptação funciona como poucas.
Filho do Reich
A história de Hellboy começa em
1944, quando um ritual pagão nazista tenta garantir um milagre ao Führer,
revertendo os rumos da Segunda Guerra. Comandada pelo monge feiticeiro Grigori
Rasputin (Karel Roden), a experiência é interrompida
por um pelotão de soldados aliados, que invade o local e impede a abertura
de um portal místico. Entretanto, a fenda ficou aberta tempo demais...
e algo passou para o nosso mundo. Nascido nas chamas do inferno, um jovem bebê
demônio, batizado pelos soldados de Hellboy, é
adotado pelo cientista Trevor Broom Bruttenholm (John Hurt).
Longe da influência nefasta dos nazistas, Hellboy (Perlman) é criado
no Bureau de Pesquisa e Defesa Paranormal, onde tem como companheiros
o tritão Abe Sapien (Doug Jones, voz de David Hyde Pierce),
Liz Sherman (Selma Blair) - a mulher que ele ama e que pode
controlar mentalmente o fogo -, e John Myers (Rupert Evans),
um agente do FBI.
Tratado como uma espécie de lenda urbana,
o Bureau sobrevive oculto do público. Entretanto, com a volta de Rasputin
à vida, auxiliado pelo assassino freak Kroenen
(Ladislav Beran) e a bela Ilsa (Biddy Hodson), as ameaças
sobrenaturais começam a aumentar perigosamente, forçando a agência
a se expôr. Agora, tudo o que separa a raça humana do apocalipse
pretendido pos Rasputin é um demônio e seus esquisitíssimos
aliados...
Hellboy é assim, como todas as
adaptações de HQs deveriam ser. Usa a computação
gráfica (excelente, por sinal) para auxiliar a história, trata
a obra original com reverência e foi feito por gente tão apaixonada
pelos personagens quanto o público que vai assistir ao filme. Triste
é que o retorno financeiro não acompanhou a qualidade da fita.
O filme só conseguiu empatar seu custo de produção nos
cinemas. Felizmente, as rendas obtidas com o DVD parecem ter animado o estúdio
a produzir uma continuação e a dupla Del Toro e Mignola já
está trabalhando em um novo roteiro. Agora faça a sua parte e
vá ao cinema ajudá-los! ;-)
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