Em 9 de outubro de 2002, foi executada por injeção
letal, no Estado da Flórida, Aileen Wuornos, a primeira
assassina serial dos Estados Unidos e uma das únicas do mundo.
Conhecida como a Donzela da Morte,
ela matou seis homens de meia idade enquanto trabalhava como prostituta
nas auto-estradas americanas. Em 2001, depois de mais de uma década encarcerada,
a assassina pediu para ser condenada à morte de uma vez, pois não
havia "razão para ficar gastando o dinheiro dos contribuintes
comigo. Matei sim, e mataria novamente, se pudesse", declarou. "Tenho
ódio correndo em minhas veias".
Aileen sofreu abusos na infância e consumiu
drogas durante toda a vida. Começou a se prostituir aos 14 anos e cometeu
seu primeiro assassinato em 1989, matando mais cinco pessoas (ou seis, não
se sabe ao certo) nos nove meses seguintes.
Poucas horas depois da execução
da sentença, um dos grandes veículos de Hollywood já anunciava
o início da produção de Monster,
filme independente que mostraria a vida da assassina. Não seria motivo
para alarde, afinal, Hollywood não é conhecida por deixar assuntos
esfriarem antes de transformá-los em película. Entretanto, a presença
de Charlize Theron (Doce novembro) como a protagonista
causou espanto. Theron parecia uma escolha equivocada para o papel, afinal ela
é belíssima, tem um rosto conhecido demais e parecia incapaz de
garantir alguma verossimilhança para a trama.
Felizmente, a atriz encontrou a maneira ideal
de abordar o trabalho: ficar feia, tática que foi recentemente testada
pelas igualmente belas Nicole Kidman, em As horas, e
Salma Hayek, em Frida. Theron transformou suas formas
ao engordar 16 quilos, sofreu um processo de maquiagem que a deixou parecidíssima
com a serial killer (incluindo prótese dentária, manchas de pele e cabelos
maltratados) e, principalmente, agiu nas telas como uma verdadeira troglodita,
movendo-se e falando como a "monstra" do título. O resultado
é tão positivo que lhe rendeu o cobiçado Oscar de
Melhor atriz.
Não por acaso, a cena que abre o longa
mostra um close-up da chuva batendo em seu rosto transformado. Um tremendo
choque para quem a viu linda no recente Uma saída de mestre.
Passado o susto inicial, o filme acompanha a vida de Aileen, desde o começo
da sua carreira de crimes até seu julgamento, e tenta humanizá-la
ao dividir o fardo da culpa com a amante Selby
Wall.
Interpretada pela sempre competente
- e esquisita - Christina Ricci, Selby é uma versão
fictícia de Tyria Moore, a mulher que na vida real dividiu
os sofrimentos com Aileen. O personagem foi criado porque Tyria havia sido retratada
de forma negativa em um documentário sobre a assassina e decidiu processar
os produtores da fita. Como em Monster é exatamente isso o que
se vê na tela, o estúdio preferiu removê-la para evitar acusações
posteriores. Assim, a personagem ficou apenas em parte verídica, o que
não tira a sua força.
Selby é mostrada com dualidade. Inicialmente
aparece como algo benéfico, já que desperta em Aileen o desejo de mudar de vida, esquecer seu passado como prostituta e progredir. Por outro
lado, funciona como um catalisador involuntário da onda de violência
da assassina, já que se coloca na posição de dependente
da outra e exige boas condições financeiras. Como Aileen não
consegue se ajustar - algo mostrado numa das melhores cenas do filme, quando
um advogado explica pra ela o que significa ser uma "pessoa normal"
- apela para o crime e acaba descontrolada pela sensação de poder.
Todavia, o longa não é genial,
nem mesmo memorável. A diretora estreante Patty Jenkins,
que também assina o roteiro, exagera na idéia recorrente de tratar
a criminosa como fruto de sua condição social e parece fascinada
demais pela vida difícil da assassina. A força do filme fica mesmo
no fato de ser baseado em uma história verídica - é necessário
descontar os excessos da cineasta - e nas ótimas interpretações
das duas protagonistas, que conseguem transmitir toda a dualidade de caráter
de suas personagens.
Vale ressaltar também que, além
de mudar fisicamente Charlize Theron, a pequena produção independente
também transformou-a de coadjuvante bonitinha de filmes de ação
ou romances açucarados em uma atriz de primeira linha. Seu próximo
projeto, a adaptação para as telas do desenho animado Aeon
Flux, já garantiu à sul-africana um invejável salário
de 10 milhões de dólares,
uma quantia significativa que engorda sua conta bancária e pode fazer
os quilos extras de Ailenn Wuornos facilmente desaparecerem.