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Tróia
Troy
- EUA, 2004
Épico/Guerra - 163 min. |
Direção:
Wolfgang Petersen
Roteiro: David Benioff (roteiro), baseado no poema
de Homero
Elenco: Brad Pitt, Eric Bana, Orlando Bloom, Sean
Bean, Rose Byrne, Diane Kruger, Brian Cox, Brendan Gleeson, Peter
OToole, Julie Christie, Saffron Burrows, Garrett Hedlund, Tyler
Mane. |
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O épico é um gênero de cartas marcadas.
Fundamenta-se em lições de moral, situações cerimoniosas, frases de efeito,
heróis inquestionáveis e maniqueísmos. Na maioria dos casos lhe é habitual,
inclusive, a previsibilidade: os melhores épicos são aqueles de relembram episódios
históricos cujo desfecho é de vasto domínio público. Assim, parece equivocado
criticar uma obra do gênero por ser pouco inovadora, esquemática
e previsível, violenta demais, fantasiosa demais,
por ter longas batalhas, amores impossíveis, etc.
Sair
à cata desses tipo de argumento é improdutivo, antes de tudo, por negar as próprias
regras do gênero.
É bom que haja essa explicação agora, uma vez
que a trilogia O Senhor dos anéis fez renascer,
cinco décadas depois, a mania hollywoodiana por tais temas. Macedônicos, helênicos,
romanos, fariseus, sumérios e toda sorte de antiga civilização belicista aguardam
o momento de colocar as suas lendas nas bolsas de apostas do verão do cinema.
Todos parecerão iguais, então como diferenciá-los?
Como saber, por exemplo, se Tróia
(Troy, 2004) - o filme de Wolfgang
Petersen (Força Aérea Um, Mar
em fúria) que relembra a guerra entre
gregos e troianos pelo controle da cidade-estado nos anos 1100 a.C. - honra
o espírito de guerra espartano ou somente segue o modismo? Nessa avaliação,
há um conceito a seguir: autenticidade.
Espetáculo
visual
E aí o orçamento de 185 milhões de dólares
(declarados) não significa muita coisa. O roteiro de David Benioff
já sai em desvantagem no quesito fidelidade textual.
Acompanhar diálogos em inglês não é problema maior do que aceitar comentários
anacrônicos, revestidos de cinismo moderno, numa época marcada por um lirismo
empolado. Benioff perde também em abrangência
e profundidade. Um recorte de 2h40min não tem como dar conta dos 15.600 caudalosos
versos da mais antiga e extensa obra atribuída a Homero, a Ilíada.
Para se ter uma idéia do trabalho, o próprio poema já reduz o tema: trata somente
dos cinquenta dias cruciais - a vingança de Aquiles e a tomada de Tróia - de
uma guerra que durou dez anos!
Assim, por mais que Petersen e Benioff tentem,
se desdobrem, o seu Páris (Orlando Bloom) não será mais do que um bobo apaixonado. Helena (Diane
Krueger), só uma bela mulher. Ajax (Tyler Mane), um
brutamontes. Ulisses (Sean Bean), um papagaio de pirata.
De certa forma, o diretor reconhece que a sua
investida tem limitações. E consegue se esquivar desse problema ao criar um
espetáculo visual correto, por vezes empolgante, que não compete em pretensão
com o clássico mas busca solidificar um épico honesto. Isso Petersen
faz com esmero. Sabe empregar os efeitos digitais sem se deslumbrar com o recurso,
sabe conduzir a câmera com elegância e, por extensão, pensar planos e ângulos
que valorizam as lutas, as paisagens, e não empobrecem os momentos de introspecção.
OToole
é o nome
Prudente no seu posto, Petersen lega eventuais
audácias ao seu elenco. Aposta em Brad Pitt. De fato, o Aquiles vivido
pelo galã não tem dificuldade em transitar entre a beleza de um semideus e a
fúria do maior de todos os guerreiros. Mas, de novo, a dimensão do dilema do
personagem condenado desde o nascimento a batalhar, tema crucial da Ilíada,
não vai além da superfície do roteiro. Tudo
parece, portanto, fadado às meras boas intenções. Mas eis que surgem Eric
Bana e Peter OToole.
Subestimado em Hulk
(de Ang Lee, 2003), Bana mostra aqui, sem retoques digitais, que possui as qualidades
de um legítimo ícone de ação. Tem as feições agressivas de um Charlton Heston,
de um Stallone, que lhe conferem verossimilhança. Mais postura, presença
de cena capaz de preencher toda a tela. Tem também talento suficiente para fazer
de seu Heitor - o herdeiro de Tróia que derrama sangue em nome do romance do
irmão Páris - o verdadeiro herói do filme.
E Bana tem a sorte de contracenar com OToole,
aqui interpretando o pai de Heitor, Príamo, soberano de Tróia. O eterno Lawrence
da Arábia dá uma aula: desde a modulação de voz durante os discursos, até
o olhar dramático nos momentos de dúvida. Repare como Pitt fica pequeno diante
do ator. O septuagenário OToole é sinônimo de épico, e Tróia
deve a ele a autenticidade que eventualmente chegue a ostentar.