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Diários
de motocicleta
The
Motorcycle Diaries
Argentina/Brasil/Chile/ Inglaterra/Peru, 2004
Drama - 130 min. |
Direção:
Walter Salles
Roteiro: Ché
Guevara (livro), Alberto Granado (livro),
José Rivera
Elenco: Gael García Bernal, Rodrigo de la
Serna, Jaime Azócar, Ulises Dumont, Facundo Espinosa, Susana
Lanteri, Mía Maestro, Mercedes Morán, Jean Pierre
Noher |
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Ernesto "Che" Guevara de La
Serna (1928-67), revolucionário e líder político,
foi um dos comandantes guerrilheiros que, ao lado de Fidel Castro, lutou contra
o governo de Fulgencio Batista em Cuba e entrou vitorioso em Havana em 1959.
Alguns anos depois, no auge da vitória e descontente com o trabalho burocrático
que o esperava na Cuba pós-revolução, ele deixou a ilha
e partiu para organizar guerrilhas na América Latina em 1965. Acabou
fixando-se na Bolívia, onde foi morto em 8 de outubro de 1967.
Guevara é considerado o arquétipo
da rebeldia poética e sua figura, imortalizada pelo fotógrafo
Alberto Korda, tornou-se uma das mais famosas e copiadas imagens
do século 20. Nela, de boina, cabelos revoltos e bigode, El Che lança
um olhar quase profético à distância.
Todo mundo conhece a história. Todo mundo
conhece a imagem. Mas o passado desse admirável argentino, "um
dos mais completos seres humanos de nosso tempo" segundo o filósofo
Jean Paul Sartre, ainda não tinha sido explorado em um veículo
de massa como o cinema.
A idéia de contar a história do
jovem Ernesto Guevara, anos antes dele se tornar o "Che", partiu do
produtor executivo Robert Redford, que chamou o brasileiro
Walter Salles, diretor/escritor de Central do Brasil e
Abril despedaçado, para dirigir o filme. O ponto de partida
para o roteiro foram dezenas de biografias do revolucionário e, principalmente,
dois livros de memórias: Con el Che por Sudamérica, de
Alberto Granado, e Diários de motocicleta,
do próprio Guevara. Ambos os livros registram as memórias de Ernesto
e Alberto em sua viagem da Argentina à Venezuela no ano de 1952. Para cimentar
o texto, horas de conversas com a família de Che e, principalmente, com
Alberto Granado, hoje com 83 anos de idade.
Depois de quase dois anos de pesquisas - que
incluiram a localização dos cenários verídicos pelos
quais passaram Guevara e Granado -, o resultado de tamanho empenho chegou às
telas no Festival de Cinema de Sundance com enorme alarde. A produção
foi aclamada no evento e semanas depois foi selecionada para concorrer no prestigiado
Festival de Cannes. O sucesso, sem dúvida, é mais que merecido.
Os diários nas telas
Na história, dois jovens estudantes argentinos,
o bioquímico Alberto Granado (Rodrigo de la Serna) e
o médico Ernesto Guevara (Gael Garcia Bernal) decidem
conhecer a América Latina numa viagem de 8 mil quilômetros,
de Buenos Aires até Caracas. Montados em uma motocicleta Norton 500,
modelo 1939, carinhosamente apelidade de "La Poderosa", os amigos
partem pelo continente que não conhecem nem mesmo dos livros,
já que em sua juventude foram apresentados na escola às culturas
européias, mas nunca aos seus ancestrais sulamericanos.
A aventura começa com ares de road
movie. Paisagens e povoados, lindamente fotografados por Eric Gautier,
desfilam na tela enquanto os inocentes argentinos conhecem culturas e lutam
contra o clima, a falta de dinheiro e a gradual desintegração
de La Poderosa. Entretanto, vai aos poucos mudando de forma, conforme a moto
se despedaça e cresce a compreensão da dupla sobre a extensão
da injustiça social e miséria da América Latina. No caminho,
tomam contato com a literatura de esquerda e estabelecem o contato com o povo,
a "raça mestiça", que será simbolizado pelo diretor
numa travessia de Guevara do Rio Amazonas.
Curiosamente, apesar do excesso de informações
de pré-produção, Diários tem uma estrutura
narrativa bastante simples e se assemelha aos filmes de origem de heróis
da ficção. Neles já conhecemos os feitos futuros do protagonista
e somos apresentados a sua juventude e formação de caráter.
Eventos inicialmente insignificantes crescem em importância no decorrer
da saga e serão catalisadores de um processo que culminará na
transformação, por exemplo, de Clark Kent em Superman, de Anakin
em Darth Vader, de Peter Parker em Homem-Aranha e - por que não? - de
Guevara em El Che.
A mudança é sutil. O filme preocupa-se
em não misturar as fases da vida de Guevara, e Gael Garcia Bernal faz
um excelente trabalho em impedir que o revolucionário aflore prematuramente.
No entanto, seria injustiça cobrir de louros o consagrado astro mexicano
quando o desconhecido Rodrigo de la Serna faz um trabalho ainda superior. É
surpreendente a transformação dele em Alberto Granado. Só
mesmo quem pôde vê-lo ao vivo, completamente descaracterizado, na
coletiva de imprensa do filme, para entender isso. Rodrigo, que na vida real
é primo de segundo grau de Che Guevara, tem uma sutileza e talento que
devem alavancar uma carreira no cinema internacional.
Claro que há alguns pontos questionáveis
na obra também, como o excesso de passagens "didáticas",
que servem para martelar na cabeça dos mais desavisados o futuro de Guevara.
O discurso politizado no leprosário de San Juan é um bom exemplo,
assim como a inserção de tomadas branco e preto de diversos personagens
no final do filme - outra reafirmação do discurso sobre a raça
mestiça. Felizmente, é possível relevar tais excessos e
os créditos finais - com fotos reais da viagem - dão o toque que
faltava ao filme, ancorando-o na realidade.
Diários de motocicleta é
tocante e indispensável. É um dos melhores trabalhos de Walter
Salles e possui uma característica comum às obras simples, mas
dotadas de conceito: ele cresce em você conforme passa o tempo. E esse
é um dos maiores elogios que consigo imaginar para um filme.