Filmes baseados em fatos reais sempre têm
um atrativo extra. Se os fatos mostrados na produção realmente
aconteceram, a aura de fascínio sobre a história aumenta e - consequentemente
- a bilheteria cresce.
Entretanto, é do cinema hollywoodiano
que estamos falando... e fidelidade aos fatos não é exatamento
o forte por lá. Embelezar as aventuras e engrandecer a nobreza e coragem
dos protagonistas é parte integrante do papel dos produtores, sempre
de olho no que o "general audience", o famoso "grande
público", gosta de ver nas telonas.
A discussão fica mais interessante ainda
quando o suposto fato real pode nunca ter acontecido. E esse é o caso
em Mar de fogo (Hidalgo, de Joe Johnston,
2004). Historiadores garantem que os eventos mostrados na aventura são
totalmente imaginados pelo homem que supostamente os viveu, o caubói
Frank T. Hopkins. Para completar, segundo a imprensa árabe,
nem mesmo a corrida que dá título ao filme no Brasil aconteceu.
Na história, o vaqueiro torna-se o primeiro
americano a competir na "mar de fogo", um perigosíssima corrida
de cavalos puro-sangue com 3 mil milhas de extensão através dos
desertos da Arábia. Montado em seu fiel Hidalgo, um
mustangue (raça considerada impura na época), o cavaleiro enfrenta
as agruras das areias escaldantes, enfrenta bandidos, encanta uma princesa,
fica amigo do Sheik dos Sheiks e realiza atos de bondade incomensurável
para os índios Sioux na sua terra natal.
Clichês da Arábia
Devia ser fácil enganar o público
em 1890, ano em que se passa o filme. Hoje, é praticamente impossível.
A Walt Disney Pictures bem que tentou, lançando um site cheio de dados
"históricos" para o seu filme, mas foi rapidamente ridicularizada
pelos pesquisadores.
Claro, isso não teria a menor importância
se o filme fosse uma obra-prima. Afinal, o público está ali para
assistir a um longa de ficção, não a um documentário.
Mas nem assim a produção consegue empolgar. O exagero no embelezamento
da história - que sozinha já seria suficientemente fantástica
- transforma as mais de duas horas do filme em uma sucessão infindável
de clichês, estrategicamente posicionados para tentar emocionar e fazer
chorar no fim da fita. Também não ajuda a tentativa desesperada
de evocar a grandeza de Lawrence da Arabia (Lawrence of Arabia,
de David Lean, 1962) nos cenários, em algumas cenas inteiras, na escolha
do principal coadjuvante e até mesmo na música.
Seria um desastre total, não fosse Viggo
Mortensen (o Aragorn de O Senhor dos Anéis) - e sua
interpretação contida do caubói Hopkins -, além
da presença sempre marcante de Omar Sharif (que teve
um dos papéis mais importantes de Lawrence da Arábia)
no papel do Sheik dono dos melhores cavalos do Oriente Médio. Pena que
nem mesmo os dois talentos combinados consigam salvar uma seqüência
terrivelmente ruim, com 25 minutos (!), colocada bem no meio do filme. Nela,
Hopkins e um espadachim eunuco fortão precisam resgatar sozinhos a filha
do Sheik, mantida num covil de bandidos com direito a leopardos famintos, lutas
e tiroteios... tudo isso enquanto a corrida está acontecendo. Péssimo.
Enfim, Mar de fogo poderia ser um grande
filme se tivesse um grande diretor por trás das câmeras. Joe
Johnston (Jurassic Park III) ficou claramente deslumbrado
com os momentos "pipoca" do filme e esqueceu-se das partes que poderiam
gerar um drama épico forte o bastante para prender a audiência
e garantir boas críticas. O resultado é tão irregular quanto
a coloração de Hidalgo, e olha que o cavalo parece que andou pastando
por um campo de paintball...