Covardia. Recorrer
a um único e engessado bloco de frases para falar de Narradores
de Javé (2003) é uma covardia. Como explicar a maleabilidade
de sua linguagem, o seu dilúvio de relatos sobrepostos, a sua oralidade
enérgica que remete aos tempos da História falada de Homero, se
temos apenas o espaço rígido da tela? O escrito não é
páreo para o dito.
Faço esse mea-culpa também para tomar coragem: até agora não me sinto capaz de dissecar toda a sua deliciosa multiplicidade com apenas algumas palavras.
Mas vamos lá. Cabe aqui promover a chamada “orientação de consumo”, mais do que exercitar a crítica, o que congelaria várias outras possibilidades de interpretação. Que o público tome conhecimento de Narradores de Javé e forme a sua própria opinião é, no momento, o que mais importa.
Afinal, tudo no filme funciona de maneira orgânica, mutante. A diretora Eliane Caffé ainda não tinha um roteiro fechado quando começou a viajar por Minas Gerais e Bahia. Com um gravador e uma câmera, ela recolhia relatos dos contadores de história dos lugares que visitava. Esses “causos” se transformariam na sustentação da trama.
Paulista de Santo André, Eliane Caffé defende a necessidade de viajar, conhecer os cenários nordestinos de que fala não apenas Narradores de Javé, mas também o seu primeiro longa, Kenoma (1998). A cineasta busca como exemplo os nomes de Guimarães Rosa (1908-1967) e Glauber Rocha (1939-1981), referências não apenas de criação, mas também como pesquisadores.
Esse contato com os rincões tem fortes desdobramentos. Ao chegar no vilarejo baiano de Gameleira da Lapa, às margens do Rio São Francisco, centro das filmagens, a equipe se deparou com o resultado de onze anos sem coleta de lixo. Com a ajuda da produção, formou-se um sistema de remoção dos detritos que forravam barrancos e se alastravam pelas ruas.
Assim, ganhou-se a confiança daqueles 2 mil habitantes que, no final das contas, seriam importantíssimos como coadjuvantes do filme. Poucos produtos da Retomada possuem uma identificação tão sincera e genuína com as questões sertanejas. Como resultado, o que se vê em Narradores de Javé é, de fato, o povo brasileiro.
Clone de miolo de pão
Claro, há muito mais. Na trama, bem-humorada, Javé está para ser inundada, para a construção de uma barragem. Situado no meio do nada, não possui sequer registros oficiais que legitimem um tombamento histórico – o único meio de salvar o lugar do afogamento. Então, a população mobiliza-se para reunir, em poucos dias, a história de Javé que sempre sobreviveu no imaginário local, mas nunca foi posta no papel.
E a única
pessoa efetivamente letrada é um pária, Antônio Biá
(José Dumont), escorraçado da vila por inventar
histórias alheias quando era carteiro. Fica a cargo dele ouvir as memórias
do povo – invariavelmente conflitantes, floreadas, tendenciosas - e entregar
o livro antes do prazo final. Começa aí uma tragicomédia
com pitadas de épico e infinitas margens de reflexão.
E José Dumont
domina a cena. Em parceria com o roteirista do filme, o dramaturgo Luiz
Alberto de Abreu, o ator cria uma enciclopédia de expressões
hilárias, que Biá dispara vertiginosamente: clone de miolo de
pão, piaba de silicone, tapioca de Exu, manicure de lacraia, pokémon
de Jesus, omelete de cupim, abelha menstruada, desinteria de tinta, dilúvio
bovino... Dumont ainda improvisa: num lampejo, imita na frente das câmeras
os golpes de Kung-Fu que Carla Caffé, irmã de Eliane, ensaiava
nos bastidores.
Daria pra escrever a resenha inteira enfocada apenas em Biá. Seria o argumento ideal para convencer o público mais reticente a ver o filme. Afinal, não por acaso, o personagem segue uma linhagem de malandros que vem de longe, passa por Macunaíma e chega até João Grilo, e que sempre garante boas bilheterias.
Se essa opção pode sugerir aquele elogio batido ao jeitinho brasileiro, Narradores de Javé conserva uma diferença crucial: Biá tenta, se desdobra, mas não consegue contornar os problemas principais – e isso é genial, dentre vários outros elementos geniais. Não deixe de ver, e comentar: assim como o futuro do vilarejo, o êxito do filme depende da tradição oral, o famoso boca-a-boca.