Joe Dante
é um daqueles cineastas meio malditos, mas nem tanto. Para quem já
foi um "enfant terrible" do cinema fantástico, hoje
ele se encontra até que bem comportado. Ultimamente mais dedicado à
televisão do que à tela grande, ele ainda está devendo
ao seu público um bom retorno ao cinema. Seus dois últimos filmes
ficaram aquém das expectativas tanto nas bilheterias como no resultado
final. Looney
Toones de volta à ação é o típico
projeto de encomenda, em que não há uma marca registrado do diretor.
Burocrático, decepcionou ainda mais que Pequenos Guerreiros, uma
espécie de resposta tardia a Toy Story em que saía o CGI
e entravam em cena técnicas tradicionais de manipulação
e robótica na criação de brinquedos vivos.
Mas é nos
primórdios de sua carreira que se encontram as sua virtudes mais divertidas.
Lançados pela Cinemagia, já estão à
venda dois dos primeiros trabalhos do diretor: Piranha e
Grito de Horror.
Piranha
(compre
aqui)
Piranha,
segundo filme de Dante, é um típico produto com a "grife"
Roger Corman, o papa dos filmes B americanos. Tem todos os ingredientes
que fazem tais produções um prato cheio aos apreciadores do trash:
atores canastrões em cena, roteiro chinfrim, efeitos especiais deliciosamente
toscos, um orçamento ridículo e um senso de oportunismo sem tamanho.
Produzido em 1978, na esteira do sucesso de Tubarão (rodado por
Steven Spilberg um ano antes), Piranha fez escola e rendeu uma
refilmagem televisiva e uma continuação ainda mais estapafúrdia
nas mãos de um estreante James Cameron (Exterminador do Futuro
I e II, Titanic): Piranhas II-Assassinas Voadoras.
Curiosamente Spielberg,
em vez de processar Dante por plágio, gostou tanto de Piranha que
o convidou para dirigir alguns de seus maiores sucessos: um dos espisódios
de No Limite da Realidade, Gremlins e Viagem Insólita.
A trama não
poderia ser mais singela: investigando o desaparecimento de um casal de adolescentes,
uma detetive xereta e desmiolada, aliada a um guia da floresta bronco, liberta
piranhas alteradas geneticamente de uma piscina localizada num antigo laboratório
secreto do governo. Cabe à dupla a ingrata tarefa de avisar a comunidade
local do perigo surreal e impedir os esfomeados peixes de chegar até
a colônia de férias na beira do rio e no mar aberto [Nota do Editor:
piranhas não são peixes de água doce? Ah, deixa pra lá!].
É claro que os políticos locais não acreditam na história
e os pobres banhistas pagam para ver os dentuços peixes devorar-lhes
em segundos ou minutos, dependendo da sua importância na históia.
E dá-lhe groselha diluída em água e cardumes estáticos
se movendo em supervelocidade. Os efeitos, cortesia do também iniciante
Rob Bottin (que mais tarde faria Star Wars e Robocop, entre
outras produções), são diversão e risos garantidos.
Filmado em apenas 22 dias, Piranha custou 800 mil dólares e arrecadou
cerca de 30 milhões nas bilheterias, sendo por muito tempo o filme mais
rentável da produtora New World, garantindo a Dante (que até
então era montador de trailers dos filmes de Corman), condições
mais dignas de trabalho em sua próxima película.
O DVD traz ainda
um documentário com os bastidores da produção.
Grito
de Horror (compre
aqui)
Já
Grito de Horror, por outro lado, é considerado - ao lado de Um
Lobisomem Americano em Londres - um dos melhores filmes modernos a respeito
da lenda do ser meio homem, meio lobo. Aqui, o mito é atualizado (o filme
foi produzido em 1980, um ano antes de Lobisomem...) de maneira criativa.
O resultado são criaturas assustadoras e originais, diferente de tudo
o que havia sido mostrado até então. Até o padrinho Corman
dá o ar de sua graça, na cena da cabine telefônica.
Adaptando para
as telas o livro Howling, de Gary Brandner, o filme mostra Karen White
(Dee Wallace), uma âncora de um telejornal que vai atrás
de uma entrevista com um notório assassino. Traumatizada após
o encontro com o criminoso num sexshop, onde ele lhe revela fatos chocantes,
ela sofre de amnésia traumática e viaja com seu marido para descansar.
Longe da cidade e das câmeras o casal se refugia numa comunidade do interior.
O problema é que os nativos têm algo a esconder. Um segredo peludo
e com garras afiadas.
Mesmo repleto de
clichês hoje mais do que sacramentados, o filme empolga quando as criaturas
atacam. Um bom trabalho da equipe de Rob Bottin, novamente ao lado de Dante.
Em especial nas caprichadas transformações.
O sucesso de Grito
de Horror praticamente redefiniu o conceito cinematográfico da besta
nos últimos 20 anos, além de render homenagens aos diretores de
filmes de lobisomem realizados pela Universal no passado, que tiveram seus nomes
emprestados a personagens do filme. Porém,
o legado negativo foram seis fracas continuações (algumas sequer
com o mesmo nome da série) até os anos 90.
O disco traz como
extras o trailer original e o artigo "O Lobisomem no Cinema",
de autoria de Carlos Primati, editor da revista de terror Cine Monstro Horror
Magazine.