No dia das bruxas do ano passado, só se falava uma coisa em Londres... doces
ou travessuras? Errou feio! Os ingleses não saem às ruas fantasiados como
crianças. O assunto era 28 Days later, que no Brasil
foi batizado de Extermínio. O título original explica
melhor o contexto, mas não deve ter sido usado para evitar confusões com um
daqueles filmes bobos (28 dias, de Betty Tomas - 2000) estrelado por
Sandra Bullock.
Num dia qualquer, em um futuro não muito distante, eco-ativistas invadem
um laboratório na Inglaterra para libertar animais que estão sendo usados
como cobaias. Numa cena que remete à lavagem cerebral mostrada em A Laranja
Mecânica (A Clockwork Orange, de Stanley Kubrick - 1971), vemos
macacos sendo obrigados a assistir a cenas de violência. Para azar dos chimpanzés,
dos próprios invasores e da humanidade, os manifestantes chegam tarde demais.
Os animais já estavam contaminados por um vírus psicológico, a RAIVA!
Ao abrir a jaula do primeiro símio, uma das ativistas é atacada e contrai
o vírus. Em poucos segundos ela se torna um zumbi raivoso, cujo instinto é
atacar sem hesitação, infectando suas vítimas, que por sua vez vão atacar
mais pessoas. Quem sobrevive aos ataques é transformado neste ser movido a
ódio. Desta forma, a Inglaterra é devastada em 4 semanas.
Não é mais um filme de zumbis americanos
Ao contrário dos vagarosos mortos-vivos que se vê nos filmes de terror normais,
o diretor Danny Boyle e o roteirista Alex Garland
(leia a entrevista
com eles) resolveram que seus zumbis seriam mais velozes que os humanos. A
explicação é mais lógica do que parece: quando você está fora de seu estado
normal, seu corpo vai além dos limites que a mente estabelece para sua própria
segurança. Essa é uma das boas novidades que eles trouxeram para a renovação
do gênero. As mudanças, na verdade, são apenas prova de que eles viram muitos
filmes do diretor George Romero, o maior expoente dos filmes
de zumbi...
Usando câmeras digitais (pequenas e de fácil manuseio), Boyle pôde filmar
in loco a impressionante seqüência inicial, que mostra Londres completamente
evacuada. Enquanto os policiais paravam o trânsito por alguns segundos, eles
filmavam. Para quem nunca passou pela capital inglesa, tente imaginar o que
seria ver a Avenida Paulista completamente às moscas às 17h, ou então Copacabana
vazia num dia de verão... Parece impossível, né? Digamos que a cena em que
Tom Cruise anda sozinho por Times Square, em Vanilla
Sky (idem de Cameron Crowe - 2001), parece brincadeira de criança.
Independente do dinheiro
Apesar do orçamento e jeitão de filme independente (apenas US$ 8 milhões,
contra US$ 170 milhões de Exterminador do Futuro 3, por exemplo) Extermínio
teve na Inglaterra uma divulgação digna dos grandes filmes hollywoodianos.
Além de comerciais na TV, foram feitos por Glynn Dillon (irmão
do Steve Dillon, da HQ Preacher) uma série de páginas no formato dos
quadrinhos, que mostrava o que havia acontecido em Londres nos 28 dias depois
da liberação do vírus até o momento que Jim (Cilian Murphy)
acordava do coma e saía à procura de qualquer pessoa.
Na sua busca, Jim encontra Selena (Naomi Harris), Frank
(Brendam Gleeson) e sua filha Hannah (Megan Burns), que explicam
o que aconteceu e o ensinam que se alguém for infectado, tem de ser morto
em poucos segundos. Não importa se é sua mãe, irmão ou melhor amigo. Buscando
uma forma de sobreviver neste mundo pós-apocalíptico, eles captam um sinal
de rádio vindo de Manchester, de um campo militar seguro. Juntos eles rumam
para o norte da Inglaterra, para este oásis livre dos zumbis.
Nos Estados Unidos, o filme também está sendo tratado como um produto diferenciado.
Além de disponibilizar na internet os primeiros 6 minutos do filme o que já
é um ótimo chamariz, a Fox americana decidiu colocar nos cinemas americanos
o final alternativo que os ingleses só viram nos extras do DVD. Dois finais
pelo preço de um!
Astros brilhantes
A escolha do elenco foi um desafio à parte para Boyle. Assim como o restante
do elenco, Cillian teve aqui a sua primeira grande chance na frente das câmeras.
O diretor decidiu usar atores praticamente desconhecidos para participar de
seu quinto filme (sétimo se computar os dois filmes feitos pela BBC na época
da ressaca pós-fracasso). A idéia era não influenciar a audiência com nomes
famosos, cujos papéis anteriores sempre vêm à mente, por bem ou por mal.
Para Boyle, a história é a estrela. E, diga-se de passagem, uma
estrela brilhante, que acentua as sombras da mente humana, seja ela infectada
ou não. E quem for ao cinema vai saber do que estou falando, pois na segunda
parte do filme, quando há uma mudança de clima na história, os espectadores
são levados a pensar que talvez estejamos a menos de 28 dias daquele terrível
futuro.
Leia também: Entrevista
com Danny Boyle e Alex Garland