Qual a fórmula do sucesso da Pixar?
Desde que se associou com a empresa de animação por computador, na produção
de Toy story (1995), a Disney, mais famosa fábrica de desenhos do mundo,
vive um paradoxo. Obras como Atlantis
- O Reino Perdido (2001) e Planeta
do Tesouro (2002) amargam inesperados fracassos de bilheteria. Já
as parcerias das duas companhias, como Monstros S.A. (2001), colecionam
recordes.
O curta Knick
Knack, de John Lasseter, exibido antes das sessões de Procurando
Nemo (Finding Nemo, 2003), de Andrew Stanton e Lee
Unkrich, ilumina a questão. Produzido em 1989, Knick Knack apresenta
uma animação digital que hoje chega a ser infantil, de tão primária, mas é
a história cativante do boneco de gelo solitário que conta. Não é a forma
dos filmes, mas a sua combinação criativa com o conteúdo que faz da Pixar
o paradigma da indústria.
E quando Procurando Nemo começa, percebe-se que não apenas o visual
cada vez mais impecável, mas também as boas tramas e as personagens carismáticas,
cativam os pequenos. E as piadas inspiradas, mais citações de filmes clássicos,
conseguem atrair os adultos. Desta vez, o cenário é o oceano, com os seus
3,7 trilhões de peixes, crustáceos e afins. E desde os minúsculos plânctons
até a areia que sobe do fundo do mar com o movimento dos animais, tudo está
presente na tela de forma deslumbrante e realista.
É tal a sensação de profundidade que o espectador pode sentir calafrios diante
de uma baleia azul ou à beira de uma fenda abissal.
A história mistura aventura ecológica e politicamente correta com lições
de fraternidade, coragem e compreensão - o mesmo princípio freudiano do filho
que deve vencer o pai, encontrado em Rei Leão (1994). No colorido arrecife,
do meio de uma anêmona, saem dois peixes-palhaços, o superprotetor Marlin
e seu filho, Nemo. O cuidado excessivo do pai irrita o peixinho, que,
certa vez, decide provar a liberdade, entra em mar aberto e acaba capturado
por humanos. Desesperado, Marlin decide se arriscar longe do seu habitat,
e cruzar o oceano atrás do rebento.
A partir daí, a trama se divide em duas: o aquário de um dentista em Sydney,
onde Nemo, com amigos engraçados, em poucos dias servirá de presente a uma
endiabrada menina, estilo Felícia; e a epopéia de Marlin e uma nova companheira,
Dory, uma peixinha perdida com lapsos de memória recente, contra águas-vivas,
tubarões e outros predadores.
Graças às feições humanas e à expressividade dos peixes, fica fácil se
identificar com as personagens (tubarões chegam a se reunir em busca de auto-ajuda!).
A costumeira criatividade com que são criadas dezenas de espécies - tartarugas,
estrelas-do-mar, lulas, baiacus, peixes-espadas, arraias, cavalos-marinhos,
pelicanos - também ajuda no encantamento. Repare como clichês recentes de
filmes de ação, como os planos infalíveis de fuga ou roubo vistos em ritmo
de videoclipe, são adaptados de maneira divertida ao formato da animação.
E delire com a tirada já antológica do ataque das gaivotas, em referência
ao clássico de Alfred Hitchcock (1899-1980), Os pássaros, de 1963.
No geral, Procurando Nemo não é tão divertido quanto Monstros
S.A., exatamente por este ser adepto da comédia física e o primeiro
por privilegiar os diálogos verborrágicos. Nem é tão emocionalmente intenso
quanto Rei Leão, já que dilui o drama familiar dentro da preocupação
com a natureza. Mas fica difícil resistir a uma obra de excelente técnica
e narrativa de refinado suspense. Aposte sem medo na versão dublada (que facilita
o deleite visual), tenha você oito anos ou oitenta, e como dizem os cardumes, Continue a nadar!