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| Desmundo
Brasil, 2003
Português arcaico (com legendas)
Drama/época - 100min. |
Direção:
Alain Fresnot
Roteiro: Sabina Anzuategui, Alain Fresnot, Ana
Miranda (livro)
Elenco: Simone Spoladore, Osmar Prado, Caco Ciocler,
Berta Zemel, Beatriz Segall, José Eduardo, Debora Olivieri,
Olayr Coan, Fábio Malavoglia, José Rubens Chachá,
Cacá Rosset |
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Nada de Carlotas
Joaquinas picarescas ou de Caramurus em divertidas orgias sexuais. O filme-de-época
da vez não é dirigido por Guel Arraes. Enfim, com Desmundo
(2002), produção e distribuição da gigante Columbia Pictures, o cinema
nacional consegue espaço na grande mídia para exibir algumas verdades sobre
a gênese do seu povo. A imundice das embarcações, a falta de caráter dos jesuítas,
a selvageria dos bandeirantes e as várias formas da escravidão assumem a tela.
Não há lugar
para globais em forma de coloridas índias, nem para galãs enfeitados como
lusitanos assobiantes. O que importa aqui é o realismo com que ficamos conhecendo
o estupro, a pilhagem, a invasão, o aliciamento, ou seja lá qual for o nome
mais justo para o famoso "achamento" do Brasil.
A trama se concentra
em Oribela (Simone Spoladore, corajosa),
uma das inúmeras órfãs enviadas por Portugal às novas terras - uma maneira
dos colonos estabelecerem família e da Igreja impedir que relações sexuais
com índias e negras corrompam as linhagens portuguesas. Oribela, no entanto,
se opõe. Quer apenas voltar para casa. Como castigo pela insurgência, recusada
por todos, termina casada com o rude Francisco de Albuquerque
(Osmar Prado, com uma barba aterrorizante e a competência
de praxe). Em meio a uma rotina de abusos, incestos, brigas e tentativas de
fuga, ela se desespera. Residem no comerciante Ximeno (Caco
Ciocler), um liberal cristão-novo, as últimas esperanças de liberdade
da garota.
Antes de qualquer
análise, destaca-se em Desmundo o impecável exercício técnico. Para
recriar o dia-a-dia do litoral brasileiro de 1570, o diretor Alain
Fresnot, de Ed Mort (1997), cercou-se dos profissionais mais
competentes: do diretor de fotografia Pedro Farkas e do diretor
de arte Adrian Cooper até o pesquisador Helder Ferreira,
responsável pela adaptação linguística. Versão para as telas do romance homônimo
de Ana Miranda (o primeiro livro de uma série dedicada às
mulheres dos cinco continentes), Desmundo é totalmente falado em português
arcaico - com legendas no idioma contemporâneo.
Para se ter idéia
do perfeccionismo da reconstituição histórica, todos os índios figurantes
(cerca de 150 guaranis selecionados na região amazônica e no litoral paulista)
tiveram até as marcas de vacina no braço encobertas com maquiagem. De fato,
impressiona o cuidado historiográfico e o aspecto visual da película.
E a trilha sonora
do maestro John Neschling, atual diretor e regente da Orquestra
Sinfônica do Estado de São Paulo, consegue dar cadência sem ser impositiva
ou invasiva. Durante o suspense, sobressai a percussão. A solidão de Orisbela
é ressaltada com flauta e violoncelo. E nos momentos mais angustiantes, um
lindo coro de vozes femininas.
Mas há um problema,
que de certa maneira ficou evidente lá em cima, na sinopse: o raso triângulo
amoroso. Infelizmente, a narrativa não recebeu o mesmo frescor criativo da
parte estética e essa burocracia barroca prejudica o miolo da película. O
personagem de Ximeno tem imenso potencial, mas não consegue ser mais do que
ilustrativo. O gritante antagonismo físico, moral e religioso que surge entre
ele e o arcaico Francisco fica apenas na sugestão.
Não se trata
de uma falha fatal. Ao fim, vale mais a dedicação do inatacável elenco, que
ainda inclui duas das mais importantes atrizes brasileiras, Beatriz
Segall e Berta Zemel - esta, no papel da mãe de
Francisco, figura-chave para o entendimento de um dos grandes dramas do filme.
O memorável desfecho
mostra que o problema do roteiro foi apenas um deslize. Com a cena de um parto
sofrível - engraçado para os inocentes índios, mas melancólico para os portugueses
-, encerra-se o filme e fica claro que tipo de herança nós recebemos.