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Bully
Bully, EUA/França, 2001
Direção: Larry Clark
Roteiro: Jim Schutze (livro),
Zachary Long, Roger Pullis
Elenco:
Brad Renfro, Bijou Phillips, Rachel Miner, Nick Stahl, Michael
Pitt, Leo Fitzpatrick, Kelli Garner, Daniel Franzese, Nathalie
Paulding, Jessica Sutta, Ed Amatrudo
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Neste 2003, Larry
Clark completa sessenta anos de idade. Mas, a julgar pelos seus filmes,
o diretor norte-americano, pai de três filhos, aparenta ter metade disso.
Dedicado a retratar o lado vergonhoso da juventude de seu país, Clark cultiva
um discurso virulento, até cruel. Apresenta mais vigor do que muito jovem
diretor iniciante.
Mas medindo-se a sua produção no cinema, Clark
está, de fato, ainda a caminho da maioridade. Fez a sua estréia com um barulho
sem igual, o marcante Kids, em 1995 - filme que chegou
a ser usado em escolas, como uma forma pedagógica de alerta dos riscos da
AIDS. Foram três anos até o seu segundo longa, Kids e os profissionais
(Another Day in Paradise, disponível em vídeo por aqui), mais três
até Ken Park e este Bully,
que estréia agora no Brasil, no qual Clark interpreta o pai de Hitman.
A regra maldosa do viu um, viu todos bem que
poderia ser aplicada a Clark. Os seus filmes, invariavelmente, exibem sexo
irresponsável, gravidez indesejadas, drogas, espancamentos, jovens alienados
e adultos ora omissos, ora controladores. Muitos críticos acreditam, baseados
em sólida argumentação, que Clark se sustenta na agressão visual, mas não
consegue esconder o seu conservadorismo, a sua visão tortuosa e moralista
da realidade.
Considerando-se o revoltante retrato exibido
em Bully, Clark ofereceria mais um instrumento aos seus detratores.
Não há, entre os personagens do filme, um único vestígio de consciência -
o único jovem com certo senso de moral é um loser gordo, manipulado
pelos amigos, que corta a grama de casa e é viciado em arcades. Acontece que,
ineditamente, o diretor possui um trunfo generoso: a trama se baseia numa
história verídica, ocorrida em 1993, e transformada em livro, Bully: A
True Story of High School Revenge, pelo escritor Jim Schutze.
Melhores amigos desde a infância, Marty (Brad
Renfro) e Bobby (Nick Stahl) têm uma relação atípica,
quase fetichista. De personalidade obtusa, Bobby trata o inerte Marty como
um brinquedo. Saem juntos, ganham as meninas, mas, na verdade, sofrem uma
sexualidade reprimida. Tudo muda quando Bobby violenta Lisa (Rachel
Miner), a nova namorada de Marty, e ainda humilha Ali (Bijou
Phillips), amiga do casal. Começa uma insurreição inconseqüente contra
o rapaz, apoiada por mais e mais amigos do grupo, que terminará, evidentemente,
de maneira trágica.
E abre-se um paradoxo. Clark exibe - com uma
fotografia obscena, quase pornográfica - jovens bonitos, sexys, em seus carrões,
sem maiores preocupações, e sem a menor profundidade psicológica também. De
fato, a molecada só faz transar, fumar, fumar, dirigir, transar, fumar e transar.
A questão é a seguinte: se a realidade se mostrou assim no ocorrido em 1993,
se Clark apenas reproduz a imagem da juventude dos EUA, onde está o erro do
filme?
A verdade é que, diante da chance de iluminar
um caso rico do ponto de vista da investigação psicológica, Clark desperdiça
o seu tiro, abusa do festim e não consegue imprimir significado nas ações
dos personagens. Os jovens são atraentes apenas fisicamente, não oferecem
um desafio interpretativo de fato (o único com algum potencial, o Bobby feito
com esmero por Stahl, acaba mal aproveitado). No fim, o diretor só consegue
criar rebuliço e impacto, rascunhar um retrato redundante, tornar ainda mais
grotesca uma circunstância já grotesca por natureza.