O nova-iorquino Martin
Scorsese nasceu em 1942, no bairro do Queens, região conhecida na época
como Little Italy. Seu pai, um funcionário público, descendente de imigrantes
italianos, precisava se submeter à Máfia local para sobreviver. Nesse ambiente,
Scorsese tinha limitadas alternativas de vida. Recusou o gangsterismo e assistiu
à queda de muitos dos seus amigos. Aos quatorze anos, tornou-se seminarista,
mas logo entendeu que tinha vocação, mesmo, para o cinema.
Ao lado de jovens como
Steven Spielberg e Francis Ford Coppola, a geração de gênios promissores que
revolucionou o cinema comercial nos anos 70, ingressou na Universidade de
Nova York. Logicamente, os seus temas passavam pela realidade que havia experimentado
na adolescência, num estilo original que mesclava cortes rápidos, personagens
desvirtuadas, violência estilizada e trilha sonora impactante.
Assim, retratou à sua
maneira os tipos mais pitorescos da metrópole. Imigrantes trambiqueiros em
Caminhos perigosos (Mean streets, 1973). Os próprios pais, no
documentário Italianamerican (1974). Motoristas e prostitutas em Taxi
driver (1976). Boxeadores em Touro indomável (Raging bull,
1980). Pintores e artistas no episódio inicial do filme Contos de Nova
York (New York stories, 1989). O auge e o declínio da Máfia em
Os bons companheiros (Goodfellas, 1990). E até paramédicos
e enfermeiros, em Vivendo no limite (Bringing out the dead,
1999).
O projeto
Apesar do currículo recheado,
Scorsese levou trinta anos para realizar o seu mais sonhado projeto. Em 1970,
início de carreira, o diretor leu o livro As gangues de Nova York -
Uma história informal do submundo de Nova York, que o jornalista Herber
Asbury (1890-1973) publicou em 1928. E se apaixonou pelo relato. Tentou
filmá-lo em 1978, com Robert DeNiro no papel principal e com a participação
do The Clash, mas os custos forçaram um adiamento. No fim das contas, Scorsese
levou 25 anos para completar o roteiro, tempo em que buscou material e depoimentos
históricos. E, finalmente, agora realiza a sua versão da história, Gangues
de Nova York (Gangs of New York, 2002), a reconstituição
de um tempo em que leis eram atropeladas, vidas valiam pouco e a Máfia italiana
sequer tinha atravessado o Atlântico.
Dificuldades na ambiciosa
realização não faltaram. Sem qualquer vestígio, no centro cosmopolita, da
paisagem desoladora que NY representava no século XIX, Scorsese recorreu ao
lendário estúdio da Cinecittà italiana, em Roma, para montar a sua própria
cidade-cenário. Fechou uma parceria com a Miramax para bancar o investimento,
mas assistiu à interferência de Harvey Weinstein, produtor-executivo
da companhia. Irredutível em seus 1,60m de altura, Scorsese defendia a duração
de quatro horas de película. A Miramax queria um corte pela metade. Foram
meses de bate-boca, reedições e lançamentos adiados, desde o início da produção
em meados de 2000. O filme chega às telas brasileiras, enfim, com 166 minutos
de narrativa fluente e momentos marcantes.
O resultado
A história concentra-se
entre 1830 e 1863, tempo de duras batalhas territoriais na Baixa Manhattan.
Começa com a derrota do Pastor Vallon (Liam Neeson) e sua gangue dos
Coelhos Mortos - imigrantes irlandeses, católicos, que fugiam da fome na Europa
- diante de Bill Carniceiro Cutting (Daniel Day-Lewis) e sua gangue
protestante dos Americanos Nativistas. Com a morte de Vallon, seu filho é
enviado para um internato. Dezesseis anos depois, Amsterdam (Leonardo
DiCaprio) retorna para vingar a morte do pai, mas encontra um terreno em que
Cutting domina os políticos, os irlandeses e, ainda, controla a vida da larápia
sedutora Jenny (Cameron Diaz).
Pode parecer uma premissa
simplória, previsível e romântica. Todavia, Scorsese tem talento suficiente
para tecer o panorama político da época e conseguir escapar de certas armadilhas.
Evita exemplarmente o sentimentalismo que o triângulo amoroso sugeriria, colocando-o
em segundo plano. E, principalmente, foge do maniqueísmo e balanceia as personagens
de Day-Lewis e DiCaprio com ambivalências, dilemas morais. O filme cresce
em complexidade a cada instante. Em determinado momento, fica ofuscada a definição
dos bons e maus, num cenário em que a carnificina iguala a todos.
Gangues de Nova York
não deixa de ser um filme brutal, mas não exibe a violência gratuita da atualidade,
e sim uma disputa engajada ideologicamente. E com resultados plásticos belíssimos,
uma reconstituição primorosa, entremeada com imagens verídicas e recortes
de jornais da época. Destaque para a seqüência inicial, cadenciada pela música
irlandesa; para a atuação memorável de Day-Lewis; para o episódio no teatro,
crucial para a história; para a passagem tensa no bordel chinês; e, finalmente,
para o final grandioso.
Mas nem tudo são floreios.
Em meio a uma história sangrenta e um final desolador, o filme deixa poucas
margens a lições de moral ou de ética. Se o episódio da disputa territorial
ocorresse atualmente, em outro país, provavelmente o desfecho ficaria na mão
dos intervencionistas norte-americanos e da ONU. Afinal - reza o ideal republicano
de liberdade - uma pendenga religiosa que gera violência local precisa ser
remediada de maneira global, a exemplo do que ocorre na Palestina. Talvez
esse seja o aviso de Gangues de Nova York, e um ensinamento aos paladinos
de Washington: com bandidos e corruptos, pessoas sem escrúpulos que dão e
tiram vidas por um pedaço de terra, também se faz uma nação.